Sábado, 3 de Janeiro de 2009

A serpente do paraíso Conhecido desde 1890, quando o primeiro homem branco botou os pés atrás de ouro, o vale de boa vista foi visitado regularmente por vários pesquisadores, encantados com as riquezas das águas e fauna. Distante do vale vinte quilômetros, erguia soberana, sob a altura dos olhos do abeservador; ora azulada, ora esverdeada, a imensa muralha ígnea em forma de montanha, que por cima dela formava o imenso planalto do índio, cortado por córregos de águas cristalinas que caía no vale formando belas cachoeiras. Ao leste, por onde surgia o sol, estendia por léguas a fios, o serrado baixo, rasteiro, ora de capins do brejo, ora de arbustos com frutos deliciosos para os animas silvestres. Nas chamadas veredas, por onde a água brotava do solo, aqui acolá, cobertas de musgos, gigantescas pedras de arenitos de granulação brancas estendia às vezes por distancia de duzentos a trezentos metros, formado estranhos desenhos obstratos, ajudados pelas moitas de Lobeiras, e de outros arbustos nativos das veredas. No mesmo rumo do sol nascente, distante cem quilômetros, outras cabeceiras de riachos eram formadas, e suas águas deslizavam-se mais para o sul, formando córregos de cincos metros de larguras por um e meio de profundidade, ricos em peixes pequenos e coloridos, depois de passar pelo sul alguns quilômetros, voltava e passava entre o vale, serpenteava e, como os outros menores, desbocava no rio são Lourenço, passeando por entre o pantanal mato-grossense. Corria o ano de 1914.O homem que estava à beira do rego de água olhou para o garoto de quatro anos em cima de um cavalo. O garoto fitava ao longe as montanhas ao oeste. _ Será aqui, pai? _ Sim. Será aqui. Um belo lugar. Faremos uma casa por ali assim. Mais embaixo, será o monjolo. Muitas águas, muitos pastos nativos. Será aqui mesmo. _ Sim, pai. Mamãe irá gostar muito daqui! Eu serei um bom homem de arreios! _ Não, filho. Você irá estudar. Arrumaremos um bom professor. Você não será como eu! _ Pai... _ Não discuta comigo! Em 1922 um estranho homem apareceu na fazenda. Era demasiado branco e gordo. Trazia dois cavalos com grandes malas de couros secos. Tinha dificuldade e falar a língua local. Souberam depois que era um alemão. Nos dias que permaneceu por lá andou por todos o vale. Desenhava muito e escrevia, empalhava pássaros, e todos os tipos de insetos. O pequeno garoto divertia-se ao vê-lo desenhar. _ Para que o senhor faz isso? Porque não trabalha ao invés de rabiscar papel? _ Isso é um trabalho sério garoto. Mostro para o resto do mundo a riqueza que vocês tem aqui. Veja este belo passaro. Não existe em outras partes do mundo! _Meu pai quer que eu estude. Talvez eu aprenda a escrever! O gordo homem nada disse. Dois meses depois, quando partia, levava uma companhia. Levava o garoto. _ Um dia voltarei, pai e mamãe! _ Gritou como um último adeus sem saber naquele momento de tristeza que existia mais dois garota que seria levado pelo gordo naturalista alemão Rodolf. * * * Descendo pelos córregos, rumo ao oeste havia varias aldeias de índios bororos. No tempo das águas ou tempos das enchentes dos rios, eles subiam em grandes grupos. No começo passavam sem se importar, desconfiados. Um dia pararam. Trazia uma garota magrinha e pálida. O casal os recolheu. Deram-lhes alguns remédios, carne seca, alguns velhos cobertores e algumas panelas de ferro. Foi um bom começo de amizade. Nos anos que se seguiam, vinham em grande grupo, paravam poucos tempos, subiam para o leste, e só retornavam quando as águas abaixavam. Assim foi ano após anos. Em meados dos anos trinta, passaram e não retornaram. Eram uns trinta índios. O casal sobe depois, pelos viajantes que pernoitavam em sua casa que foram todos assassinados perto do estado de Goiás. No meados de trinta e cinco, o velho cacique que se chamava Tugure com cinco acompanhantes esteve com o já idosos casal. Estavam tristes e nervosos. _ És um bom homem branco. Tem sempre sido amigos dos índios. Mas ate quando? Veja, há brancos por toda parte! Não temos mais caça! Estão acabando com o mato! Tem subido para cima? Não? Mataram quase todos nós; ate criança. Isso é bom? Não! Más você um grande ‘jopurocura’ Deixaremos vivo. Você amigo nosso! Más outros não! Mataremos todos! Deixaremos que viva por que seus dias estão acabando! E seu filho? Será bom como o pai? Ira respeitar terras de índio? _ Meu filho será um grande amigo dos índios. A vida dele é este vale. Cada vez que vem aqui não quer mais voltar. Já sabe muito. Ele irá defender estas terras e a de vocês! _ha! Isso bom. Bom mesmo! “Brade! Você um bom brade!” Não é preciso. Iremos embora. Sua tosse pegar em nós. Pra lá. Iremos pra lá. Todos olharam para ao longe da montanha. Do outro lado dela o que podia avista-se era pequenas nuvens brancas despontando para o imenso céu azulado. PRIMEIRA PARTE. Outubro de dois mil e quatro. Lá de cima, a visão da cidade de B continua sendo privilegiada, é bem verdade que outrora, ela era bem mais bonita nos meses chuvosos. Ela se tornava mais verde, os vales, os gramados por onde corriam as molecadas atrás das bolas ou pipas. Mesmo depois de uma grande época sem chuva, e do grande incêndio, ela voltou a tornar-se verde novamente. Mais agora é outubro, e nestes dias o sol torna-se vermelho e sem brilho, fazendo lembrar uma velha moeda de cobre. Um calor infernal, irritante, enfumaçado, cobre a cidade como uma teia de aranha. O normal nos dias passados, como este, a população se refugiava nas grandes piscinas naturais, aos pés das montanhas azuladas, paraíso defendido a unhas e dentes, desde a fundação da cidade. No centro, uma praça fora criadas as pressas, com seus postes agora pintados de brancos, centenas de crianças, adolescentes, enchia-a com parecer festivos, agitando bandeiras em meio a gritarias alegres. Os professores organizavam todo aos berros, esfregando os olhos irritados, vermelhos e arenosos, as camisas suadas e pegajosas davam lhes aparências estranhas de ratos molhados, correndo de um lado paro o outro em busca de oxigênio. “Menores na frentes” berravam, colocando o pulmão em aceleração máxima, arrastando as crianças para seus devidos lugares. A poucos metros, um cinegrafista esperava impaciente, desolado. Derrepente, num gesto rápido, aponta a câmera para o começo da rua. Em cima de um jeep aberto podia se ver a sulieta feminina de Dora Lopes. Abriu os braços jogando beijos para a multidão em delírio. Beirava as sessenta anos. Retirou os óculos escuros e sacudiu a cabeleira loira. Seus olhos claros, de um azul penetrante, fitaram a multidão sorrindo. Quando o carro passou por mim, seus belos olhos me fitaram como duas bolinhas de gude, e por frações de segundo, lançaram-me chispas de ódio. Minutos depois ouvi sua voz cristalina soar em um alto-falante. E continuei a ouvi-la, enérgica, aveludada e magnética, enquanto subia por uma rua pouco movimentada. Dora Lopes continuava mais senhora de si que nunca. Lamento muito ter sido aquele o nosso último encontro. Deixo aqui minha profunda admiração por ela. Sinto muito que nossas idéias não tenham sido compartilhada dos mesmos ideais. * * * É bem verdade que agora estou mais observador que trinta anos atrás. Conhecia bem o interior daquela velha mansão. Lembro-me muito bem de seus aposentos úmidos de outrora, com seus cheiros de suor e risadas masculinas, de homens brutais, comandados por Teodoro, nos finais de semanas ou dias de pagamentos. Reformada há pouco tempo, certas coisas continuavam em seus lugares, como aqueles velhos ganchos de metal amarelo. Continuavam ali nos mesmos lugares, enfileirados, lado a lado, agora tristes, sem qualquer chapéu, pareciam sem brilho, sem orgulho e sem vidas. Pelos corredores, velhas fotografias restauradas, traziam novos brilhos, novas cores. Até mesmo o rosto de J Vilela parecia um pouco diferente. Lá em baixo, novas construções foram construídas, varandas gigantescas do lado sul, outra menor ao norte, churrasqueiras, banheiros revestidos de cerâmica ate ao teto, funcionários bem vestidos catavam qualquer folhinha que teimava em cair sob o piso bem varrido. Grandes mesas estavam lotadas de jovens barulhentos que haviam chegado de todas as partes. Estas e outras coisas não cabem a mim criticar, sabendo do avanço da modernidade. Na verdade meu tempo era um outro tempo. Mudou tão rápido nestes últimos quarenta anos que fui ficando, ficando para traz, sem poder me adaptar a certas coisas, parei então, resolvi apenas olhar, e escutar. De certa forma, aqueles ganchos de colocar chapéus e eu, tínhamos muito em comum. * * * Não sou assim um sujeito esquisito como teimam em pintar certas pessoas. Mas também não gosto de ser olhado como um bicho em extinção. A moça que se chamava Bárbara, minha guardiã, nos dias de terror que assombrou a cidade, me olhou como tal. Levou-me para os aposentos onde ficaria nos dias do velório de J e dos outros. Foi clara e fria no primeiro encontro. _ Tenho ordens de não deixa-lo sair só pelas ruas. Temos um sargento que lhe fará companhia, se for preciso. _ disse com as mãos atrás das costas. _ Estão com medo que me perca nesta cidade que ajudei a fincar os primeiros postes? _ São ordens de Beatriz. Sabe como ela e severa. Não posso passar por cima de suas ordens. Procure me entender, senhor! O certo é que não ouve qualquer tentativa de ataque contra mim. Como Beatriz soube antes de todos nós, que algo não estava bem, eu não sei. Sua desconfiança não salvou a vida da estrela maior. Pecou por isso. Lamento pela sua queda. No aposento tentei dormir, meu corpo doía muito, sabendo que ficar deitado, forçando-o a um relaxamento muscular era pior, rodei pelo quarto, respirando fundo. Após um bom banho ás três horas da manhã, desci a escadaria e adentrei a uma sala onde outrora fazíamos nossas reuniões. Ali estavam sendo organizadas as fotografias que seriam expostas nos dias seguintes. Passei um longo tempo a observá-las. Se não me falha a memória o arquivo continha a cerca de mil e quinhentas fotografias * * * Segunda parte. Década de sessenta. Quando aquela moça magricela começou a andar entre os nossos homens, foi impossível não notar sua presença. Passeava entre os homens com suas perguntas irritantes: que planta é esta? Tem certeza que ela vai pegar?” Desembaraçada, com uma saia tão curta para suas pernas longas, pouco se importava com os olhares masculinos para seus fundilhos. Sabendo da história, fui ter com o pai dela, um russo polacão, como era conhecido. Balançou a cabeça contrariado. “Ela não é normal, é um diabo em forma de gente”.Certo. Talvez seja desta época que o J cravou os olhos nela. E daí para frente, jamais se livrou dela, como tentou algumas vezes. Filha de pai rico desfilava em um Itamaraty pelo o acampamento, ria muito, mostrando seus dentes incrivelmente branco, outrora, gargalhava, forçosamente, sacudindo a cabeleira loira. O sorriso sumia, assim que notava minha presença. Era do saber de todos a antipatia que nutria pela minha pessoa. Mesmo agora, trinta e tantos anos depois, nada mudara. Quando estava na casa dos vinte, estava tão bela, mais tão bela, que nenhum homem não a tenha olhado duas ou mais vezes em frações de segundos. Sedutora, com seus olhos de promessas eternas, arrastara uma multidão de homens para seus pés, que depois, talvez desiludida com eles, soltava-os sem qualquer serventia. Isto era do saber de todos, e ela, pouco, muito pouco, se importava com o que diziam dela. Quando desapareceu do vilarejo para terminar os estudos, o lugar entrou numa calmaria até então desconhecida pelos jovens sonhadores que a queriam como troféu de exibicionismo. Um ano mais tarde quando voltou, estava mais senhora de si. Continuava a rir muito, mas sem a gargalhada forçosa. Foi aí que encontrou J. Vilella, alto, magro, cabeludo, com seus dentes cavalares e sorriso cínico. Se foi amor à primeira vista para ela, não demostrou. Continuou flertando pelas redondezas. Quanto a ele, todo mundo ficou sabendo no primeiro porre. Cantou, dançou em cima de uma mesa, jurando-lhe amor eterno. Foi um reboliço. A esposa ao saber, pediu explicação. Encurralado, optou pela carne mais fresca. Franscisca, sua esposa, jamais o perdoou. Passada a época de altos e baixos, a vida continuou, depois da poeira assentada, para ambos, como num mar de rosas. Oito anos se passaram rapidamente. Dora ficava sumida a metade dos anos, fazendo teatro de corpo e alma. Nesta época, não era uma estrela ainda, mais brilhava. Até que Zelito Viana botou os olhos em cima dela. O resultado fora o estrondoso filme “A Deusa Nua”.Uma porta aberta para fama. Daí para frente contracenava com Stênio Garcia, Paulo Austran. Em 1969, uma caravana de estrangeiros invadiu a cidade de B. lá estavam Francis Ford Cappola, barbudo, com óculos de armação larga, Sirley knight, em férias do filme, “Caminhos mal traçados”, do próprio Cappola. Podia então vê-los ali, todos reunidos, nas piscinas naturais, seminus como Deuses no paraíso, americanos, alemães, franceses, italianos e outras raças. Nas noites, as músicas tomavam contas das ruas e prédios vizinhos, onde ficavam. Passavam as noites regados de vinhos e bebidas importadas. A fama do paraíso em pleno oeste brasileiro traspassou fronteiras. Um ano depois, dois crimes bárbaro, colocou tudo por terra. Como num passe de mágica, como haviam chegados, desapareceram. Felizmente, o sonho já havia criado raízes. E tínhamos Dora Lopes. * * * As más línguas diziam que Andreia era uma magricela esperta. É bem verdade que seu pescoço fino, as mãos com os dedos exageradamente longos, davam-lhe esta farsa magreza. Os vestidos que usava, estavam sempre abaixo do joelho. O corpo, o essencial para alguns, estava sempre coberto. Uma tolice. Vezes por outra era vista tomando banho de trajes diminutos, e lá estavam as carnes em seus devidos lugares. Se não muito, também não faltavam em excesso. Acredito que Teodoro a amava muito. Não se importava com seu pescoço longo, nem suas mãos ossudas. Se alguém mencionasse o nome dela com ar de ironia, era considerado como um desafeto. Pediu-me uma opinião sob ela. Não dei. Quem era eu para dizer se fulano ou sicrano, não era merecedor de alguém? Falou de seu amor por ela. Um par de alianças! Iria mandar fazer um belo par de alianças com os nomes gravados, que ambos usariam trocados. Pobre Teodoro! Teria sido ele mesmo o assassino dos dois jovens norte-americanos? Seja como for, Andreia deve ter passado o diabo. Pelo ao menos foi o que demostrou durante um mês inteiro. Gritou, esperneou, e, o mais terrível: negou a alimentar-se. A crise passou rápida. Um quarentão de bolso fofo foi o pretendente seguinte. Era um bom sujeito. Pediu-a em casamento, fazendo lá sua declaração de amor. Aconselhada de que o amor chegaria na primeira noite que ambos dormissem pelados, aceitou o pedido de união. Se foi completamente feliz nunca soube. * * * Se era melhor lidar com um bando de cavalos selvagens, invés de homens, não tenho opinião própria. Teodoro estava sempre com esta frase na boca, quando estava irritado. Não era para menos. Tinha sob seu comando duzentos homens. Sorriso sempre fácil era um sujeito formidável. Mesmo com crise de humor, não deixava transparecer seu abalo íntimo. Seu único defeito, era a bebida descontrolada nos fins de semana. E ela o levou à queda, e junto com ela, arrastou junto J. Vilella. Era o homem de frente. Sem ele, jamais existiria a floresta verde que circunda a cidade. Falava a língua dos homens rudes, quase fanfarrão, bebia com eles, emprestava dinheiro sem pensar se haveria retorno no amanhã seguinte. Criticado por andar envolvido em brigas de butiquins, respondia com uma gargalhada. O assunto morria aí, neste ponto, sem mágoas. E assim foi por anos a fio. Foi quando certo dia o mundo desabou. Fora pego ensangüentado, bêbado ao lado de dois jovens estrangeiros, amigos de J e Dora. Lembro-me de seus olhos cravados em mim, espantados, por se ver abandonados atrás de uma grade. Seus gritos recearam pelos corredores. G! G! G! Minhas éticas, meus princípios, ao ser mostrada minha covardia, valem tanto hoje como uma moeda falsa. * * * O padre Benedito fora o homem mais inteligente que conheci naquela época. Podíamos ser inteligentes, mas ele era sábio. Saia bem em qualquer assunto. Falava de música, dava aula de literatura, sem desmerecer qualquer intelecto, falava de astronomia, arqueologia, e quando trouxe umas pedras negras para mostrar, garantiu que havia descoberto uma mina de diamantes. É claro que ninguém foi procurar. Dono de uma grande cabeça era considerado meio louco, alimentado pelas manias de andar com a cabeça baixa, monologando consigo próprio. Era motivo de piada para os enguinorantes que não o entendia. Certa manha fez –me um estranho comentário, ao saber que Teodoro havia sido levado para uma prisão, condenado a vinte anos de reclusão. Maneou a cabeça, resmungando. “A verdade às vezes esta por traz de coisas insignificantes. Quem iria acreditar?”. Como pude ser tão burro por tantos anos? A autoconfiança, às vezes, pode ser de um grande atrapalho. Benedito sabia bem disso. Por isso manteve a boca fechada naquela época. Quando tentou me alertar, era tarde demais. Não se lembrava mais de quem se tratava. * * * Dora, que fazia muita questão em não manter qualquer diálogo comigo, tinha, por vezes, atos que me desconcertava. Fechava os olhos para estes atos desonestos que ela teimava em usar. Aparecia sorridente, aduladora, toda lã por fora, e por dentro a mesma de sempre. Neste caso aí, podia ficar de sobreaviso: estaria precisando de ajuda, algo que não podia fazer sozinha ou que J havia lhe negado. _ mais este favor, G! Não posso fazer. Deixo com Você a missão! _ Que se trata desta vez? Não se sente envergonhada? _ O melhor jeito de mantermos no mesmo barco, é você pra lá e eu pra cá! Vou partir amanhã de manhã, não quero dizer para o J. diga para ele que não sei quando voltarei. Tenho muito trabalho pela frente. Sim? Não havia como negar. Passou o resto do ano sem dar as caras. Sem mais os amigos estrangeiro, só e magoado, J passou a beber mais. Vezes por outra, buscava-o em algum bar. Estava embriagado. Pegava-o pelo ombro e o arrastava para fora. “Valeu a pena, irmão? Diga, Valeu a pena? Acha que valeu a pena?” Dizia magoado, arrastando as palavras. Quando o colocava no carro, passava a cantarolar Let me again, de Frank Sinatra. Isso no começo da década de setenta. * * * Nos meados de sessenta e oito, a cozinheira chefe apareceu com um garoto maltrapilho. _ estava roubando comida. Ninguém o conhece por aqui. Esta falando que os pais o abandonaram. Esta há uma semana dormindo no barracão do padre Benedito. O padre ficou surpreso quando soube. Garante que não tenha o visto antes de hoje._ olhei o garoto sujo. Estava sem camisa. Usava um calção listrado e rasgado. _ De onde você veio, filho. _ Não sei de onde viemos. De vários lugares. _ Onde estão seus pais? Porque o deixou aqui? _ Não sei. Não sei para onde foram. _ Se não der informação sob eles não vamos encontrá-los. Porque não nos diz quem são seus pais? _ Não sei para onde foram. Quero ficar... Não quero ir. _ Dê-lhe roupa limpa. Procure informar quem são seus pais e mande o ir. Não podemos ficar com crianças no acampamento._ disse para a cozinheira. Uma semana depois tornei vê-lo novamente. Andava pelas plantações com uma moringa de água nas costas. _ Não encontrou seus pais? _ Já disse. Foram embora. Estou bem aqui. Não vê que estou levando água para os homens lá em baixo? Em um dia chamava João, no outro dia, José, e assim em cada dia usava um novo nome. Voltei a falar com ele novamente. _ Porque esta trocando de nome todos os dias? Não gosta de seu nome? Esta escondendo alguma coisa? _ Não gosto de meu nome. Sansão é muito feio. Gosto mais de João. _ Esta bem. Será João por enquanto, ate sabermos seu verdadeiro nome. Ordenei que o colocasse na escolinha para criança. Dias depois lá estava ele por entre os homens, suado, sem camisa e novamente com a moringa nas costas. Irritado com esta atitude, chamei-lhe a atenção. _ Porque não esta estudando? Não lhe colocaram na escolinha? _ Não gostam de mim. Estão rindo, me chamando de gigante. Não vou voltar lá. Pude entender seu drama. Na verdade ele bem maior que as outras crianças de sua idade. Sabendo da sua teimosia, com tanto trabalho pela frente, pensei então que o melhor seria deixá-lo de lado. Antes, porém, dei-lhe uma nova tarefa, que não era tão pesada como andar com uma moringa de água nas costas. Seria a de levar os animas de trabalho para pastarem em lugares diferentes. Nos primeiros seis meses, não tornou a dar mais trabalho, até que um dia J me procurou. _ Adotou um garoto? _ Não seja tolo! Os pais o abandonaram. Que quer que eu faça? _ Mande-o ir embora. Vai nos trazer problemas. Ela passa as noites com uma espingarda nas costas. Anda caçando. _ Com uma arma? Onde conseguiu? _ estava espantado. Era expressamente proibida arma no acampamento. Sabendo do sério problema que poderia vir pela frente, esperei para tomar uma decisão mais acertada, embora não soubesse qual. Para minha surpresa, me entregou a arma dois dias depois. _ Farei somente o me mandarem. Não me mande ir embora. Diante desta imploração, deixei que ficasse. O resto do ano correu tranqüilamente, mas no primeiro mês do novo ano seguinte, quando achava que tudo estava indo muito bem, fui acordado às duas horas da manhã, futuro dia de segunda feira. Ao me deparar com ele, senti o poder das selvajarias. Tinha o rosto deformado por pancadas, por cima do corpo um estranho vestidão feminino. Tentou caminhar amparado pelas paredes, por fim, escorregou para o chão. Arrastei-o e coloquei sob uma cama. _ Tire esta roupa. _ disse-lhe, sabendo o que viria a seguir. Suas costas estavam com sulcos profundas, feitas por fortes chibatadas. _ Meu deus! Quem lhe fez isto? _ Não sei... Quero ir embora... Quero dinheiro... Tenho que ir embora... _ Quem lhe deu este roupão? É uma roupa feminina. _ Dora... Eu estava em sua casa... Fechei então os olhos para tal fato. Dois dias depois, desapareceu. Não tornei a vê-lo. Nem mesmo em meus pesadelos. CAPÍTULO DOIS. SEGUNDA PARTE. Dias atuais. Nos últimos trinta anos, a cidade mudara muito. Embora não tenha estado antes nela, sabia notícias sob ela. Mantinha contatos, vezes por outra com J. Nada mais daqueles tempos diziam respeitos a minha pessoa. As coisas agora eram dirigidas severamente, exigiam-se resultados, e explicações. Estou falando do Ame o Verde. Antes podia ter sido um sonho, hoje, a realidade em fotos coloridos, reportagens em revistas semanais, milhares de associados pelo mundo afora. Somente J Vilella, podia e tinha o nome sempre em tona. Não incluo aqui Dora Lopes, já que era e sempre fora a garota propaganda do A V. havia a história, é claro, nela podia saber como tudo havia começado. O bom mesmo era não ter que por os pés novamente aqui. Ainda não entendi o porquê de velar o corpo de J onde tudo começou. Podia ser em outro lugar qualquer. Trinta anos é muito tempo. Seria para prestigiar velhos conhecidos de outrora? Quantos deles ainda estavam vivos? Sabia do padre Benedito, Andreia e mais alguns. Ou seria para sensibilizar as pessoas de que preservar continuava sendo o melhor bem para humanidade? Seja qual for a intenção, o meu caso não e propaganda. Bom mesmo seria poder ter evitado o que veio a seguir. * * * Ter o controle sobre a ansiedade não é uma das tarefas mais fácil. Na minha idade nada mais é do que esperar, esperar e esperar. Esperar que de uma hora para outra tenha uma recaída fatal, que o coração canse de bater, que tenha uma pelamunia aguda, mesmo fechando as portas para ela. Aqui, neste ponto, torna-se difícil, com tanta fumaça de queimada clandestinas, feitas por pessoas irresponsáveis. Na rua era impossível respirar ar puro. Restava apenas esperar, olhar pela janela lá em baixo, os movimentos das pessoas, dos adolescentes que chegavam em ônibus, de todas as partes, dos policias, com as mãos cruzadas nas costas e olhos atentos, telefone encostado nas orelhas, gritos, correrias, abraços e beijos. Um mundo estranho e bonito a juventude. * * * - Tens visita, Senhor Gerônimo. A Sra. Andreia, dona do hotel arcos. Esta acompanhada pela filha caçula. _ Qual é a sua opinião sob ela? _ perguntei por achar que minha guardiã poderia dar informações de Andreia recentemente. Como já afirmei, trinta anos são muito tempo. Nada sabia de Andreia madura. _ Minha opinião? Ora, nenhuma! Sei que todo mundo sabe, que é bastante severa com seus empregados, mesmo estando o hotel nas mãos da filha mais nova. Tem uma rede de hotel pelo estado, e é viuva há muitos anos, vive mais na fazenda que nos hotéis. _ Bem... Faça-a entrar. Não havia jeito de não olhar para o pescoço de Andreia. Era o que mais se sobressaia de seu corpo. Os olhos também. Agora estavam menores, vivos, prescrustores, negros como dois caroços de feijão em cima de uma bandeja clara. Suas mãos continuavam magras e ossudas, trazia os dedos, finos e compridos, cobertos de anéis de todos os tipos de metais nobres. Com elas em repouso, fazia lembrar as terríveis garras de um gavião carcará, pronto para o ataque final. O pescoço, outra vez, estava coberto por uma gola alta de uma blusa de malha fria. Por cima desta, um colar de pérola em várias voltas dava seu toque final, ornamentado pelos cabelos ainda negros, escorridos pelas costas. Aquela era a verdadeira Andreia. Alta, magra e orgulhosa, jamais usaria uma jóia falsa. O rosto coberto por uma grossa camada de creme, que fazia desaparecer as rugas, fazia lembrar um rosto de cera, macabro, sem expressão. Era uma morta com dois olhos vivos, frios e irônicos. Sua filha, ao seu lado, era o oposto. Cheirava a sexo, os neurônios explodiam pelo rosto, seios, e pernas. Bocejava muito e beirava a apatia. Estava sonolenta, por uma noite regada a sexo, seja lá com diabos quem. O nervo abalado fazia-a torcer as mãos com freqüências. Olhou me duas ou três vezes. Preocupou mais com a tarefa de limpar as unhas e ticatear as pernas nuas e belas. Era uma viva-morta. _ O tempo tem sido cruel para conosco, heim? Mas não esta tão acabado assim. Que tens feito para manter a forma? _ disse Andreia, como se nos últimos trinta anos o tempo não tivesse passado para nós. Continuou a tagarelar, falando do passado, retirando lembranças dos labirintos por mim esquecidos. Como era de esperar, o assunto foi para o J. lembrou de suas bravura, como não podia deixar, de suas loucuras também. _ Pobre J! Porque estão fazendo isso com ele? Acha que foi idéia dele soltar seu último suspiro aqui? Claro que não! A coisa ficou internacional! Não notou como a cidade esta limpa? Pintaram até os postes, que jamais sentiram cheiros de tintas! Quantas pessoas! Não posso reclamar. Estamos superlotados! Temos vários sujeitos graduados e de gravatas, bolsos cheios e muita pouca vergonha. Sabe como é. Onde a televisão esta... Lá estão eles, prontos, de cabelos grudados na cabeça cheia, cheia de idéias fantásticas pra mudar o mundo! Só falta combinar com os eleitores. É por isso que as tevês os atraem tanto! São como carniça fresquinha para urubus! Pena que junto com eles venha também gente sem escrúpulos! Isto toca à sua segurança! Porque esta tão bem guardada? _ Talvez estejam com medo de que seja seqüestrado. _ Não esta falando sério! _ Não sei. Tentei me informar. Dizem que são ordens lá de cima. Cá entre nós, não esparrames, estão achando que estou caduco e posso me perder pela cidade... _ Não! Não! Você esta brincando! Caduco? _ disse ela com uma gargalhada alegre._ Não! Eles estão certo, G! Você parou no tempo! Não sabe como este lugar esta cheio de pessoas más intencionadas! Veja minha filha aqui! Meteu-se em ema enrascada! Tenho tentado ensina-la, ser mais discreta em suas escapadas! Não somos como pessoas pobres que nada tem a perder, com certos falatórios. Temos um nome para zelar! Agora é tarde! O chantagista pediu dez mil reais! Imagine! _ Mamãe! Não esta sendo correta! Entenda minha posição! _ Ora, filha! G é como o irmão mais velho que nunca tive! Um velho camarada! Que me diz, G? Não acha que dez mil é muito dinheiro? _ Deve-se pensar no escândalo. Ela é... _ Casadíssima! Não pode imaginar o que seria se o velho pão duro do sogro dela saber! Exigiria o divorcio imediatamente! Isso seria a repartida dos bens! Eles tem certas quantias em ações na empresa. Ainda tenho duas opções. Ou pago e corro o risco de ficar nas mãos do chantagista, ou apelo para uma decisão drástica. _ Andreia fez uma careta. Suas mãos se fecharam como se pegasse algo invisível no ar. Suas unhas grandes e pintadas de uma cor estranha fez-me novamente lembrar o terrível bico do predador. Levei um pequeno susto. Para me recuperar, recorri à falta de educação, curvando-me para arrumar a amarradilho do cardaço de meu sapato, tão bem feito em forma de borboleta. Andreia tagarelou mais um pouco e se despediu. Foi a última vez que estive com ela. * * * Acredito que Assis, o sargento que rondava o quarteirão com seus homens tenha ficado cm certa pena, a me ver sempre ali na janela, olhando para a cidade enfumaçada. _ Vamos dar uma voltinha à manhã cedo? Não acho que seja muito bom ficar aí trancado o dia todo, recebendo visitas e mais visitas. _ Na verdade, não é nada agradável. E quanto à Bárbara? Ela é bastante fiel para com as ordens superior. _ Deixe ela comigo. Falarei com ela esta noite. Não quer nos dizer a razão de deixá-lo trancado. Talvez tenham recebidos alguma ameaça. Sempre tem alguém querendo estragar as festas dos outros. O caso aqui não é diferente. O que temos na verdade, são alguns crimes comuns, causados por bebedeiras, divergências comuns. Até agora não tivemos nem um trabalho. A não ser um pobre homem que ontem a noite deu algumas voltas pela quadra. Parecia um tanto bêbado. Nada sério. Na manhã do dia seguinte, antes do sol começar sua luta contra as fumaças, sairmos para o que seria uma breve caminhada. Pobre Assis! Tentou de alguma maneira evitar que minha caminhada não se tornasse tão marcante com um estranho acontecimento, que mudaria o rumo dos meus pensamentos, até então incrédulos para um futuro pessimista em torno de minha pessoa e as outras, de uma forma geral, ligada ao A V. Uma pequena mulher de olhos furiosos, um jovem de joelhos e algemados, e uma cena grotesca: um cadáver degolado. Sem dúvida não era a melhor maneira de começar um dia. Não havia mais como não participar do fato. Dois policias fardados estavam ao lado do jovem algemado, mais para um lado, uma pequena mulher de cara enfezada, tentava parecer neutra, sem se afastar. Ao lado do corpo decapitado, três homens a paisana estavam debruçados sob ele, fazendo o que seria uma perícia minuciosa. Um dos policiais militar fez um aceno. _ Sargento, olhe quem esta aqui._ Assis olhou para o jovem que permaneceu de cabeça baixa. _ que ele aprontou desta vez? _ Roubou minhas galinhas! Esta é a terceira vez esta semana! Tem que dar um jeito nele! _ Disse a pequena mulher. _ O delegado vai cuidar disso, minha senhora. Nosso trabalho é proteção. Depois do fato acontecido, aquele homem que esta ali, fará a ocorrência. Depois ira para as mãos do jurados e daí... _ E Daí será posto em liberdade! Não sou tão burra como o Senhor pensa, Sargento! Não quero que leve ele sem antes pagar pelas minhas galinhas! Depois de preso, quem ira pagar por elas? _ Assis deu de ombro. Aproximou do corpo sem vida. _ Meu Deus! Quem diabos teria feito isto? _ Sei lá, sargento. Alguém com força o suficiente para separar a cabeça do corpo com uma só pancada. Ainda não dar para saber que tipo de arma foi usada. Talvez um facão pesado, uma machadinha de carpinteiro, coisa assim. _ Comentou o delegado. _ teremos que tira-lo daqui, antes que chegue algum jornalista curioso. Teremos que levar o caso em banho Maria, sargento. Sabe o que estou querendo dizer: nestes dias de festa para a cidade, a ordem é que todas as celas permaneçam vazias. Seja quem for este pobre idiota, terá que esperar que enterre o velho J primeiro, para que o caso venha a torna. Enquanto isto trabalharemos em silêncio. Veremos se alguém sentira a falta deste infeliz. Não porta qualquer tipo de documento que o identifique. Não parece que seja daqui. Suas roupas são de grife. Talvez um turista, para o nosso azar. Parece que pegaram o aquele cretino novamente. _ Roubo de galinhas. _ Disse Assis. _ Onde o pegaram? _ Na festa de aniversário de sua namorada. Esta senhora nos levou até ela. _ Disse um policial levantando o jovem larápio. _ Tem dinheiro, rapaz? Pague as galinhas. Dê o dinheiro para esta senhora. Pode dar o seu preço, dona. _ Ela mencionou certa quantia. O policial tirou-lhe as algemas, e este tirou o dinheiro e deu para a pequena mulher. O delegado deu-lhe um sopapo._ Fora! _ Gritou_ esta é a ultima vez, heim? Assis puxou-me pelo cotovelo. A cena poderia ter sido engraçada, se não fosse pelo cadáver, ali, de bruços, com o rosto para cima, a poucos centímetros do corpo. Mesmo para minha profissão, a cena fora brutal, grotesca e sem sentido. Não fora atoa, que jamais a exerci profissionalmente. * * * Antes tarde que nunca, para sabermos e tentar corrigir uma opinião errônea, malvada, e com certo sabor de narcista. Alice era a única pessoa que queria encontrá-la naqueles dias. Sem uma opinião própria, era usada na adolescência pela colegas mais espertas. Bastava ouvir uma conversa interessante para usá-la como se fosse de sua autoria quem não a conhecia, podia sentir –se magoado, achando que a opinião era imprópria para o momento. Filha mais nova de J, era uma matraca falante, que fazia lembrar um papagaio doméstico. No meu caso, eu a adorava. Mais que causava certa irritação, sua conversa infantil, sem maldade, causava. Gostava de a ouvir nas tardes passadas, quando ela era uma criança peralta, de cabelos loiros caracolados, que fazia o diabo para não pentea-lo. Pena que o tempo mudara para ambos. Trazia um neto pelas mãos. Como era de se esperar por parte dela, reclamou do lugar, do aposento, da falta de claridade do local, da fadiga que estava sentindo no momento. _ Como esta agüentando tudo isso, tio? Não se importa com a barulheira infernal que os jovens estão fazendo lá embaixo? _ Não. Com a velhice veio junto a compreensão. _ Deus me livre! Porque não foi para outro lugar mais sossegado? Estou com Dora em sua casa. A coitada tem chorado muito. _ É a última pessoa que poderia supor que estivesse ao seu lado. _ Mamãe esta morta. Porque iria odiar alguém que um dia amou Papai? Ela não é assim tão má. Suponhamos que se eu fosse ela, teria que dizer não para um homem algum dia. É por isto que a detesta tanto? _ Você esta mal informada. Já não é mais aquela criancinha de outrora. É melhor que repense sob estas palavras, e da sinceridade da pessoa que lhe disse tal bobagem. _ Não... Não se zangue, tio! Não me referia ao Senhor.Mas sim daquele homem que era amigo seu... Aquele que matou aquele dois estrangeiro naqueles tempos... _ Teodoro, Alice. Teodoro. _ Sim... Sim... Este mesmo. O Senhor sabe que ele os matou por ciúmes de Dora? Que ele os viu juntos tomando banhos, e os matou? _ Não. Não sabia. Como soube desta história? _ Dora me contou. Pobre Dora! Fico imaginando o diabo que ela passou no meio daqueles ignorantes que eram os homens de papai! Pobre papai! Aquele homem o destruiu! Se não fosse por ele, talvez papai tivesse recebido o prêmio Nobel! _ Tagarelou mais um pouco. Talvez ele tivesse sonhado com algum prêmio. O seu maior sonho era que os protetores da natureza crescesse dia a dia. Isso ele viu com vida. Sabia muito bem que não poderia mudar uma geração de uma noite para o dia, e que uma semente plantada e regada com amor poderia dar bons frutos. O prêmio seria apenas mais um detalhe na vida de um gigante. * * * _ O padre Benedito, Senhor Gerônimo. _ Esta acompanhado? _ Não. Esta só. Deveras o padre era feito do puro cerne. Naqueles velhos tempos ele era o mais velho de todos. Deveria ter sessenta e tantos. Agora beirava aos cem. Adentrou curvado, apoiado por uma bengala de apoio, com passos curtos e rastejantes. Bárbara ajudou-o a se acomodar no sofá. _ Como é terrível a velhice, heim, Gerônimo? Parece-me que ainda não sentiu todo seu peso. Agüente firme! Para isso estou aqui. Para prolongar seus dias na face da terra! Não vou perguntar por que esta aqui. Tem todo o direito de dar o último adeus a seu irmão. Embora isso me pareça um tanto infantil, já que nesta idade é impossível não pensar na última viagem. Não estava em meus planos, voltar a esta cidadezinha de uma torre só. Resolvi isto dois dias atrás, quando ouvi uma conversa entre um ajudante e a cozinheira. O rapaz é descendente de uma velha família desta cidade. Esteve por aqui estes dias atrás. Como pensam que estou surdo, falam da largura que a boca permite, sem rodeios. _ Contava à cozinheira que presenciara algo horroroso. Vira um homem degolado por completo. Isso nada dizia à minha pessoa, se ele não tivesse mencionado que lá estava, ao lado de um sargento, um velho de um nariz tão grande como nunca vira na vida. Quem seria a não ser você? _ Sim. Acertou. Sairmos para dar um caminhada, quando deparamos com a cena. Uma coisa grotesca. Parece que foi decapitado ou coisa assim. _ E isso não lhe diz nada? Ele acordou! _ Não lhe estou entendo, Benedito. _ Não? Não se lembra daqueles dois crimes que chocou a população naquela época? Jamais engoli a história que fora o pobre Teodoro que os mataram! Talvez minha imaginação esteja em decadência, e que também esteja vendo chifres em cabeça de cavalos, mas ouça: _ Antes de deixar esta cidade, anos atrás, não me recordo à data exata do ocorrido, me ocorreu um estranho encontro com um homem. Estava passando por uma rua, não me lembro qual, quando o estranho me pediu fósforo. Atendi-o, despercebido. Ao me devolver o fósforo, disse: “obrigado, padre Benedito”. Levantei os olhos para ele e tive uma estranha sensação de tê-lo conhecido em outros tempos. Deixei o caso de lado, já que não consegui recorda-lo. Mais seu olhar frio, permaneceu cravado em minha mente. Então aconteceu! Alguns meses depois, reconheci a quem pertencia aquele olhar! O garoto! Aquele garoto espancado, não sei por quem! Você lembra dele. Sei que lembra. _ Sim. Os pais deixaram ele para trás. Dizia chamar-se Sansão. Lembro que não gostava do nome. Inventava nomes, como José, João, etc. isto não quer dizer que seja ela o assassino. _ Acontece que sei de mais coisas. Certa vez uma de minhas fiéis fez-me estranhas confissões, lamentava seus erros do passado, e que se pudesse voltar no tempo, seria para corrigir um grande erro_ o padre deu um pequeno tossido e parou por um instante. Depois continuou com a voz um pouco trêmula. _ Lamento, mais nada posso dizer. Deixe que os mortos enterrem seus mortos! Vá embora! Vá enquanto pode! Nada mais prende você a este lugar! O J já esta morto e nada mais resta fazer, a não ser rezar pele sua alma! Não alimente o desejo deste assassino de matar! Ele esta ansioso! Permaneceu por anos adormecido! Voltou a despertar com todo este barulho em torno do nome de J Vilella! Vá. Leve junto Dora Lopes! J, Wilson, e eu éramos os três filhos adotivos do naturalista alemão Rodolf. Foi nas gélidas universidades européias que nossas amizades consolidaram. Por isso éramos considerados irmãos. Devo dizer que não levei a sério o padre, mas que o desejo de deixar o lugar, começou naquela noite. Foi quando recebi a notícia de que o corpo de J chegaria naquela mesma noite, restava então, fazer as malas. O dia seguinte foi cansativo. Detalhes do enterro do J, pode encontrar nas paginas dos jornais daquele dia. * * * No dia seguinte, após o enterro de J, a cidadela trazia uma aparência de morte. Era 13 de outubro. O sol continuou vermelho das dez da manhã até seu último suspiro, ao escurecer. As ruas ficaram desertas, vez por outras, podia ouvir gritos de crianças ao longe. A cidade voltara ao seu rítimo normal. Uma fileira de ônibus e carros comuns, deixara a cidade na madrugada, numa barulheira infernal, sob gritos dos adolescentes. Lá fora, uma faixa solitária, pairava, quieta, sem uma leve brisa para balanceai-la, transmitia sua mensagem num grito mudo: SALVE O PLANETA AZUL PROTEGENDO NOSSO VERDE! Acabara. Poderia ter ido embora muito antes do amanhecer, voltar para o meu sossego, tentar recuperar as energias gastas nos últimos dias. Mais não. Na madrugada, ouvi os passos de Bárbara pelos corredores. Podia sentir que estava pronta, mala arrumada, segura se si, consciente da sua missão cumprida. Permaneci deitado. Para que pressa, agora que tudo estava calmo? A conversa que tivera com Benedito, vagamente vinha à minha memória, esquecida pela confiança exagerada, pelo conforto do silêncio, adoçada pela paz momentânea e preguiçosa. Quando sai da mormata, encontrei Bárbara junto com Assis. Ele estava cabisbaixo, e ela de olhos vermelhos. _ Estão prontos? _ Ela esta pronta. Eu ficarei. Acho que para uns dois dias ainda. Disse Assis. _ Conte para ele _ Disse Bárbara. _ Conte para ele. _ O que há de errado? _ soube, então, que já não iria naquele dia. A notícia de que Teodoro estava na cidade, me pegara de surpresa. Não seria justo partir sem ter qualquer contato com ele. Assis lamentou a desinformação do policial que o atendera. _ Ele apenas cumpriu as ordens que passei: nada de estranhos, depois das dez da noite. Em todo caso, o Senhor pode encontrá-lo no hotel. Era mesmo Teodoro. Não era de o seu feitio guardar rancor. O fato de ele ir procurar Andreia, seu antigo amor, provava isso. _ Irei procurá-lo. Trarei-o aqui. São apenas seis horas da manhã, talvez ainda esteja dormindo. _ disse Assis. Mas contrariando todo o nosso plano, ele voltou uma hora mais tarde, carrancudo e abalado. _ Parece que o diabo esta solto. _ comentou com um profundo suspiro._ Andreia esta morta! Assassinada! Enfiaram um saco plástico em sua cabeça. Meu deus! Lembrei-me do padre Benedito. Comentei com ambos a conversa que tive com ele. _ Sansão? Só isto? Um nome que nada diz. Um homem sem rosto. Talvez o padre possa nos ajudar. Não acredito que o delegado ira leva-lo a sério. Sem querer ofendê-lo, Sr, Gerônimo, mas o padre esta muito velho. Pode ser que o encontro tenha ocorrido. E daí? Não se pode dizer que um homem é um criminoso, só por causa de seu olhar opaco. Mesmo sabendo que o padre tenha uma forte intuição. Tenho outra hipótese. Teodoro! Acho que seria bom falar com o delegado. _ Não. Eu não irei. Uma vez para mim foi o suficiente. Não posso vê-lo outra vez por traz de uma grade. E ainda não tenho nem a certeza que foi realmente o culpado. Tenho que encontra-lo. Preciso encontrá-lo antes do delegado. _ Comentei decidido. As palavras do padre falava mais alto. Se deixasse a cidade agora, perderia a última chance de corrigir um erro do passado. _ O melhor caminho, ainda é o delegado. Sabendo de quem se trata, levara o caso com mais respeito. Seria bom ouvi-lo. _ Teimou Assis._ Concordei. Fomos então ter com ele. Tive então uma outra surpresa. O velho delegado havia trabalhado rápido. Em apenas três horas, já sabia tudo sobre Teodoro. Coçou o queixo pensativo, parecia um tanto embaraçado. Lamentou que o suspeito fosse uma pessoa conhecida. _ Parece que esta desequilibrado mentalmente. Isto é comum numa pessoa que passou muito tempo em uma prisão. Todas as provas recolhidas, indica ele. Veja este bilhete, passado para nós pele filha de dona Andreia. “Temos que nos encontrar, sua vida corre perigo T. O T, seria a inicial de seu primeiro nome. Teodoro. Pelo que contou sua filha, ela foi procurada por ele dois dias antes, queria dinheiro. Pelo que fiquei sabendo, ambos tiveram um passado amoroso. Com certeza sentiu que poderia ser ajudado. Ela deu-lhe algum dinheiro. Depois ela não quis mais saber de conversa. Contou à filha que andava com medo. Muito medo mesmo, salientou a filha. Confesso que não estou convicto de sua culpa. Como um homem se sessenta e tantos anos pode fazer isto? Por isso, só podemos deduzir que ele não esteja muito bem da cabeça. Não podemos, também, esquecer de seu passado. Um assassino é sempre um assassino. Era muito seu amigo?”. _ Sim. Foi um grande amigo. _ Que estranho! Porque será que não o procurou? _ Ele tentou. Ouve uma desinformação. Foi nesta noite passada. _ Compreendo. Uma pena, talvez pudesse ser tudo diferente. Vamos fazer o possível para resolver o caso sem violência. Se puder nos ajudar, dando endereço dos velhos amigos... _ Sinto muito. Não consigo, no momento, lembrar alguém. Mais farei o que puder._ Disse. Na verdade, não estava em meu planos dar qualquer tipo de ajuda. Se, naquele instante, soubesse onde estaria ele, eu seria o primeiro e vê-lo. * * * Decidi, Então, que ficaria mais tempos na cidade. No meio da tarde, tive outra conversa com Assis. _ Nosso delegado anda nervoso. O secretário de justiça, teve a gentileza, entre aspas, de telefonar para ele perguntando se precisava de ajuda. Negou veemente. Tem duas batatas quentes nas mãos. Sabe quem era o degolado? Um terrível de um trambiqueiro, falsário, estalionátario, etc. a morte de Andreia, ganhou prioridade. Veja mais o que descobriram: um pobre de um mendigo pediu comida para a velha hoteleira, esta o mandou ir trabalhar. Irritado com a mesquinhez da velha senhora, fez-lhe algumas ameaças verbais. Não acredito que ele vá levar este fato a sério. Dona Andreia, era pontual para ir pra cama. Segundo a filha, deitava as dez em ponto. O médico garante que ela foi morta entre as três para quatro horas da manhã. O que faria ela em seu escritório a estas horas? Teria ela um encontro com o assassino? _ O que me diz do chantagista da filha? _ Seria possível? O Senhor acha que ela seria capaz de cumprir a ameaça, levando-a ao extremo? Talvez exista aí, uma pista. Suponhamos que ela não quis pagar o preço exigido pelo chantagista. O que ela faria? O que faria o Sr, em uma atual situação? _ Uma das opções seria contratar alguém que colocasse um ponto final na história. Não seria pelo preço exigido. No caso dela, estava em jogo a sociedade com o sogro da filha. Pago a primeira vez, existiria o medo da segunda, e mais outras. Não correria o risco. _ Certo. É isto mesmo. Suponhamos que ela apelou para ao extremo. Contratou alguém para resolver o problema. Um assassino. Ele vai, faz o serviço, volta, que o dinheiro combinado, ou talvez mais, ela nega a dar. O assassino a mata também. _ Uma boa dedução. Mais cadê o chantagista? _ Poderia ser o degolado. Meu Deus! Taí a chave do mistério! Porque não? Heim? Porque não? Vamos fazer uma investigação paralela a do delegado. Depois contaremos a ele nossas descobertas. * * * Assis determinou que deveríamos começar pelo jovem ladrão de galinhas, a procura do suposto assassino, contratado para matar o também suposto chantagista, morto com uma arma que poderia ter sido um grande facão, ou mesmo uma machadinha usada por carpinteiros. Na suposição, o jovem ladrão que passara a noite atrás das galinhas, poderia ter visto alguém suspeito, no caso, o próprio assassino. Tivemos um rápido encontro com sua mãe. Estava bastante agressiva. Recebeu-nos com pedras nas mãos. Lançou-nos um olhar de desconfiança e desdém. _ O que é desta vez, Sargento? Quem é este senhor? Se veio prender meu filho, perdeu seu tempo. _ Não. Não viemos prendê-lo. Na verdade, o que queremos é sua ajuda. _ Não brinca, sargento. Onde esta sua pose de maioral engomado? _ A Senhora Esta vendo alguma diversão em nossos rostos? _ Esta bem, Sargento. Esta desaparecido desde dia em que vocês o pegaram. Soube do caso pelos outros. Tenho quase certeza que ele tenha fugido com uma putinha que é sua namorada. Ela nunca prestou! Cedo ou tarde, ela iria fazer sua cabeça! Vagabunda! Vou dar na cara dele quando ele por os pés aqui novamente! _ Poderia dar-nos o endereço dela e o seu nome? _ Aline. Mora ao lado do bar do chicão. _ ela apontou o rumo do sul. _ dê-lhe alguns conselhos, sargento! _ Pediu ela. Seus olhos ficaram de um vermelho lagrimejentes. _ Farei isto. É só encontra-lo. Não foi difícil encontrar a moça, de belos olhos, indolente e pernas de fora. Do namorado nada sabia. Havia desaparecido _ Na última vez que o vi, foi em meu aniversario. Se encontra-lo, sargento, diga que estou esperando-o. _Darei seu recado, moça. Adeus! _ Onde diabos se enfiou este rapaz? _ Comentou Assis irritado. _ Talvez tenha ido embora. _ E deixado uma bela garota daquela? Não. Não pode ser. Vamos ver aquela mulher pequena e brava, dona das galinhas. A pequena mulher nos recebeu muito bem. Estava mais calma e não trazia no rosto aquele olhar tão furioso daquele primeiro encontro. _ Precisamos de vossa ajuda, minha senhora. _ Disse Assis, bajulador._ gostaríamos de saber se a Sra. tenha visto alguém na manhã daquele dia terrível. _ Estão a caça do homem que matou aquele sujeito lá embaixo, heim? _ Sim. Estamos a sua procura. _ Bem... Acho que vi sim... Mas não é o que os senhores estão procurando. _ Disse ela com os olhos sonhadores. _ Como sabe se não é o que estamos procurando? _ O que eu encontrei não parecia ser um bandido. Era bem diferente. _ Pode nos dizer que tipo era, este que a senhora encontrou? _ Bem... Era um belo homem... Ao passar por mim, curvou-se, gentilmente, pareceu-me que naquele instante, sorriu também. Ainda estava escuro. Não pude ver direito, mesmo assim pude ver seu belo bigode bem feito. Alto e forte com aquela capa escura então... _ Capa escura? Não temos o costume de usar capa nesta época do ano! Não poderia ser outra coisa? _ indagou Assis agitando os braços, tentando dar uma outra idéia que não fosse a tal capa. _ Uma capa escura. Tenho certeza. Voltei o rosto para olhá-lo novamente, mas ele não se voltou mais. Fique por instante vendo-o afastar com passos largos. Era como um Deus. Sabe como é. Tenho-os visto sempre. _ Hã é? E onde a senhora os encontra sempre? _ Nas novelas. Onde mais? _ Claro, claro. Como sou tolo! É verdade. Bem... Foi muito bom conversar com a senhora. Obrigado! Deixamos a pequena mulher sonhadora. Assis me olhou irônico. _ Viu só? Nós tentando resolver os problemas da humanidade e ela sonhando com galãs de novelas! Mais esta agora da capa! Talvez ele tenha-a usado para esconder a arma do crime. Ou para proteção de suas roupas. Resumindo em poucas palavras, vestido próprio para matar! Vamos contar ao delegado. Veremos o que ele irá nos dizer. Mas o delegado nos olhou com certo cetismo _ Não sei se devemos levá-la a sério. Parece que procura um príncipe em todo sapo que encontra na rua. A solidão é algo sério. É muito difícil chegar em casa a noitinha e não ter para quem contar que quase foi atropelado por um idiota qualquer na rua! Mas vamos ao que interessa. Na nossa profissão temos que trabalhar com todas as hipótese, mesmo aquelas que podem ser descartadas logo na primeira vista. _ Suponhamos que dona Andreia seja a mandante do crime. Que aconteceu então? Recebe a ameaça do chantagista. Desconfiada que ele continuará a pedir dinheiro, mais e mais, resolve por um ponto final na história. Aí então aparece sua salvação! Um grande amor do passado, que não lhe negará o pedido de socorro. Ela esta desesperada. Ele não esta es situação melhor. É um ex-prisidiário, sem saída. Aceita o pedido, seja lá qual foi a proposta dela. Mata o chantagista. Volta para acertar a conta e ela nega a pagar o combinado. Ele não quer mais vê-lo. Ele então mando-lhe o bilhete ameaçador. Amedrontada, ela o recebe na madrugada e a mata! Pode ser. Mas porque a matou com um saco plástico, enfiando-o na cabeça dela? Porque não usou uma faca? Uma pancada forte na cabeça? Não houve uma luta corporal. Conversaram tranqüilamente, até a ponto de deixá-lo a se aproximar por traz. O assassino tomou a decisão de matá-la, na hora! Não foi um crime premeditado! Não. Não faz sentido! Ele não teria força suficiente para degolar um homem que estivesse em pé na sua frente. Teodoro matou-a; somente ela! São dois casos diferentes. Minha opinião é que ela o recebeu por piedade. Talvez, envolvida com um clima de saudosismo, tenha o deixado a se aproximar por traz. Talvez esperasse um carinho, um beijo, não a morte por afixiamento. Só nos resta pega-lo. Aí descobriremos o resto. Pegaremos ele vivo! Confiem em mim. Assim que o deixamos, Assis comentou irritado: _ Que cabeça dura! Esta correndo contra o tempo. Sabe que isto não é bom para ele. Lamento lhe informar, que isso é bastante comum nas policias. A população exige rapidez nas investigações de crimes famosos como o deste caso. Sem saídas, enfiam o primeiro suspeito atrás das grades, para prosseguir com as investigações, mais tranqüilamente. Infelizmente usam estes truques sujos. Vamos esperar para ver. Veremos o que podemos fazer amanhã. É melhor não deixarmos a Srta. Bárbara descontente. É um veneno doce aquela mulher! Nada como uma boa noite de sono para colocar as idéias no seu devido lugar. Disse alguém. _ concordei, sem saber naquele instante, que aquela seria a pior noite vivida por mim. * * * Acordei sob gritos e pancadas. Alguém tentava a todo custo por a porta a baixo. Gritos femininos chamavam pelo meu nome em desesperos. Uma pedrada certeira espatifou o vidro da janela provocando um barulho assustador Pensei tratar-se de um terrível pesadelo. Mais não. Estava bem acordado. Arrastei me até a janela. Uma pequena multidão gritavam lá embaixo. Vi Bárbara me acenando um pano branco, fazendo-me sinais para descesse. A porta fora aberta com um último chute e alguém me arrastou rumo à escadaria. Um cheiro forte de fumaça tomou conta de minhas narinas, fazendo em meus olhos um ardume de choro. Compreendi o que estava acontecendo. Fogo! Um incêndio em algum lugar qualquer. _ Temos que sair daqui! A floresta esta em chamas! Não podemos ficar um minuto amais, senão morreremos todos afixados! _ disse-me, a Jovem Bárbara. Deixei-me levar por entre mulheres e crianças, que como eu negava-se a acreditar no que estava acontecendo. Passavam poucos minutos da meia noite, e as horas que vieram a seguir, foram as mais longas e angustiantes de todas as vividas. Quando o dia chegou, podia se ver uma grande fumaça que cobria todo o vale. Quando os primeiros homens chegaram, sujos e suados, pude então ver a vitória em seu rostos cobertos pelo carvão. Sentado no chão, coloquei o rosto entre as pernas, olhando para meus pés nus. Uma terrível confusão mental ameaçou-me por instantes. Que eu estava fazendo ali? Lembrei-me de Benedito. Procurei assustado, por todos os rostos sujos, o de Assis. Encontrei o de minha guardiã, sereno, olhos apertados e decididos. _ Vamos, Sr. Gerônimo. Vamos encontrar Assis. * * * _ Acabou, Seu Gerônimo, acabou! Foi o espetáculo mais grosseiro e horrível que vivi em toda minha vida! Jamais poderia imaginar uma cena tão grotesca! No fundo as chamas se aproximando rapidamente, e o corpo balançando como um grande boneco de pano! Tinha uma fina corda de nylon em volta do pescoço. Foi fatal! Havia um pequeno tronco por onde, provavelmente subiu. As mãos estavam soltas, mas se quisesse se libertar, seria impossível. Foi um baque e tanto! O nosso delegado deu uma pequena entrevista ao amanhecer. Pela sua dedução, Teodoro colocou fogo no mato e se suicidou em seguida. _ disse Assis. _ Isto faz sentido? _ Era um homem isolado, desacreditado. Isto torna qualquer ser humano sem qualquer lampejo de esperança. A mente fica em alerta geral. Tudo e todos passam a ser seu inimigo. É o começo da esquizofrenia. Mesmo assim, não há justificativa para o que fez. Porque tanto ódio? Soa mais como uma cruel vingança. Uma vingança contra todos que o abandonaram no passado! Não pode haver outra explicação. Devemos acreditar nas palavras do delegado. _ Não. Não acredito nisso. Ainda acho que o padre esta com a razão. _ O Sr deve relaxar. Acho que as coisas chegaram a um final. Ao meio poderá fazer uma visita ao cadáver. É um convite do delegado. Quer ter certeza de que se trata mesmo dele. Era ele mesmo. Rosto magro e ossudo, nada fazia lembrar o homem jovem de outrora. Toquei-lhe às mãos. Trazia no dedo um velho anel prateado, gasto pelos anos. “Não sabes que dia é hoje, G?”. “Não. Não me lembro!”. “Treze de setembro!”. “Meu Deus! Esqueci-me, completamente! Nem um presente sequer para o seu aniversário, Teodoro! Fique com este anel! É de todo coração!”. “Obrigado, G! Que fará quando tudo isto acabar? Irá voltar para suas terras?”. “Sim. Tenho pensado bastante nisso. Vem comigo?”. “Sim. Gostaria muito que me levasse junto. Eu e Andreia. Seria seu capataz!”. “Claro, Teodoro. Faremos isso!”. “Você e um camarada formidável, G! Sinto-me muito bem ao seu lado. Espero que seja assim para sempre!”. Para sempre! Era este o seu desejo. Ouvi passos e o delegado estava atras de mim. _ É ele mesmo? _ Sim. Ele mesmo. Quero que lhe dêem um bom enterro. Mande-o para minhas terras. _ Como? _ Mande levar o corpo para minhas terras. Será enterrado lá. * * * _ Ouve um enterro hoje, Gerônimo._ Disse Assis cabisbaixo. _Não entendi, Assis. Quem era? _ O nosso jovem ladrão de galinhas! Encontraram-no degolado em um matagal, a um cinco quilômetros da cidade. Estava em um estado horrível. Foi decapitado! Sabe o que isto significa? _ Que as coisas não estão certas. Não entendo mais nada. _ Ouça que tenho para falar. O velho Teodoro não tinha condições de matar ninguém. Hoje a tarde, encontrei um casal de sitiantes. Mora a um duzentos quilômetros daqui. Disseram que Teodoro apareceu por lá um vinte anos atrás. Estava tuberculoso no época. Ajudaram-no. Ele permaneceu por lá até o mês passado, quando anunciou de surpresa, que viria rever velhos amigos. O pior de tudo é que estava quase paralisado de um lado. Tivera um grave começo de um derrame cerebral. Isso o fazia andar mancando. O delegado não quer conversa. Considera o caso encerrado. Mais ficam várias perguntas no ar. O caso de Andreia não tem ligação com os outros crimes? Como Teodoro conseguiu colocar fogo em vários pontos da mata em tão pouco tempo e ainda se suicidar a uma distância tão grande do fogo, se mal conseguia andar direito? Se tudo isso foi culpa de um só homem, foi uma grande jogada. Vamos continuar com a nossa teoria. Estive martelado o meu cérebro. Veja ao ponto em que cheguei: continuo pensando que o ponto de partida é na dona Andreia. E mais. O assassino não estava pensando em matá-la, até que ele viu Teodoro. Bolou então a grande jogada. Matou ela. Depois incendiou a mata e antes dependurou o pobre coitado. Por quê? Uma vingança! Ele sabia do passado dele, sabia que ele era um ex-presidiaro. Sabia que ambos tiveram um passado romântico e que a culpa cairia em cima dele. Como o delegado esta acreditando. Mais quem é ele? _ Benedito tinha razão. Sansão! João ou José, seja lá qual o seu nome verdadeiro. Meu Deus! Que irá acontecer agora? _ Pela lógica, dará o fora. Saiu tudo como ele planejou. Se for esperto, deve estar bastante longe, a esta altura. Lavaremos as mãos. _ Disse Assis com um profundo suspiro. Estávamos enganados. Ele atacou novamente, onde todos imaginavam impossível. Tive, ao amanhecer do dia seguinte, uma grande surpresa. * * * As noticias que chegaram a mim, foram pelos jornais. No amanhecer, assim que abri a janela, avistei vários policias fazendo a guarda da casa. Para que? De onde viria o perigo agora? Algo havia acontecido de grave para eles estarem ali parados como cães de guarda. Procurei rápido pela minha guardiã. Estava com os olhos grudados no noticiários matutinos. Olhou-me incrédula. _ Mataram-na! Mataram-na! Dora! Dora Lopes esta morta! Meu deus, meu Deus, meu Deus! _ O que aconteceu? Como pode acontecer? _ Não sei de nada! Sei o que acabei de assistir pelos tele_ jornais! Não consigo falar com Assis. Olhe lá fora quantos policiais! No estou entendendo o que esta acontecendo! Porque tudo isso? _ Agora sei o que esta acontecendo, Bárbara. Alguém esta querendo exterminar todos aqueles que estiveram aqui no passado. O próximo pode ser eu. O A V tentou me proteger por todos estes dias. O que eles sabiam, que nós não sabíamos? Esqueceram de Dora. Pobre Dora! Procure por Assis lá fora. Não é possível ficar aqui parado sem poder saber o que esta ocorrendo. _ estava tudo muito irreal, como se estivéssemos grudado em uma gigantesca teia de aranha sem poder nos mover, privado de qualquer liberdade, preso pelo terror com os nervos a flor da pele. Assis apareceu pouco tempo depois. Trazia vários jornais debaixo do braço. Balançou a cabeça contrariado. _ Estávamos no caminho certo! Lamentavelmente! Como poderíamos imaginar que ele fosse tão longe? Não levou em consideração as conseqüências que a morte da atriz iria trazer! Isso prova a sua decisão de ir em frente matando. Sinto dizer, mas o Sr. corre grave perigo! Soube do crime esta madrugada. Não entendo porque ele não veio até ao Sr. Ele teve tempo. Por algum motivo, desistiu. Graças a Deus! Leia os jornais. Corri os olhos (“O que esta acontecendo na cidadezinha de B, a duzentos e trinta quilômetro da capital”? Famosa nos anos sessenta e meados dos setenta, quando estava em plena fama de cidade ecológica “esperimentativa”, voltou a ficar famosa na semana passada, quando seu fundador e idealizador do A V. {Ame o verde}.) Jaspim P Vilella, conhecido internacionalmente como J. Vilella, foi enterrado aos noventa anos, morto por conseqüências respiratórias. Esta madrugada, voltou ao noticiário, desta fez em forma de tragédia, com o assassinato da atriz Dora Lopes, estrangulada e encontrada em sua casa de férias, na cidade de B. Filha legítima da cidade de B, ficou conhecida nacionalmente como a eterna namorada de J. Vilella. Meiga e sempre sorridente, era considerada ima das mulheres mais bonitas do Brasil. Esteve sempre em evidências desde os anos sessenta, quando estreou nas telas com o estrondoso filme “A deusa nua” contracenando com atores famosos. Ultimamente estava em filmagens de um novo filme, na Chapada dos Guimarães. Na semana passada ele permaneceu na cidade de B. para o funeral de J Vilella, onde depois voltou às filmagens. Até a pouco ainda não sabia o porquê de sua ida até sua chácara, que fica a cinco quilômetro da cidade. Não era comum na atriz, segundo colegas, pedir um ou dois dias de férias para descanso. Segundo sua empregada que sempre a acompanhava, (A atriz não gostava da palavra “empregada”, dizia “companheira”) insista em dizer que a atriz não se sentia cansada ou exausta pelas filmagens, como se especula por aí. Dois dias atrás, foi a vez de ser enterrada na capital, a viuva de Analdo Veiga, Andreia Veiga. A matriarca comandava a rede de hotéis Arcos, que se estende por todo o estado. Foi encontrada morta com um saco plástico enfiado na cabeça. Neste caso a policia agiu rápido. O assassino, um desequilibrado mental, antigo namorado com mais de sessenta anos, conhecido pelo nome de Teodoro Boa Ventura, condenado a vinte anos de prisão pela morte de dois homens. Especula-se que tenha cumprido parte da sentença, fora posto em liberdade anos atrás. Com o alvoroço causado pela morte de J Vilella, tenha voltado a cidade e matado a antiga namorada. Feito isso, colocou fogo na floresta que circunda a cidade e depois se suicidou com uma corda no pescoço. Nesta madrugada, o delegado que apura o caso, numa entrevista deu a entender que a atriz estava acompanhada por um homem. “Talvez um namorado”. Ou ele entrou durante o dia, quando alguém deixou a porta aberta e permaneceu escondido, ou acompanhado pela atriz, já que não há sinais de arrombamentos.” Afirmou ele”. A afirmação do delegado de que a atriz poderia estar acompanhada de um namorado, irritou a filha da atriz, Dorana Lopes, no Rio de Janeiro. Numa entrevista tumultuada desmentiu o delegado, afirmando que sua mãe era uma senhora de sessenta anos, avó e responsável. Bastante nervosa, chegou a pedir na entrevista, que o ministro da Justiça, enviasse homens com mais capacidade._ acontece que num caso como este, o que o ministro pode fazer é pedir ao governo do estado que aja rápido nas investigações. Um novo delegado, só na última hora, de nada adiantaria, já que a policia trabalha com serviço de informação, às vezes feitas por próprios bandidos local. A V. Estrela de primeira grandeza, garota propaganda do AME O VERDE, era de grande serventia. Ajudou e muito o sonho quase impossível de ser realizado. Amigas de gentes famosas, teve sempre as portas abertas para adentrar onde bem entendesse. Foi muito além. Graças a ela, hoje o A V alcança a fabulosa cifra de cinco milhões de associados pelo mundo afora. O fim dos maiorais. Existiu realmente o quarto homem como se especulam por aí? Não há qualquer referência nos arquivos do A V. Wilson Godoy foi o primeiro a morrer e, bastante jovem. Um acidente automobilístico adiou-o de ver o sonho realizado. Contam-se que era o mais alegre do três. Brincalhão, de uma imensa barriga, era palmeirensse doentio. A pedido da família, foi enterrado com uma camisa do time. Sua função no A V era coletar mudas de árvores pelo Brasil a fora. J. Vilella, o fundador e idealista do projeto era uma figura estranha. Dono de um pequeno jornal, fez dele sua arma mais poderosa, dono de um estilo único, massacrava quem lhe cortasse o caminho. Suas escritas atravessaram o atlântico, com denuncias sob o desmatamento da floresta amazônica. Do outro lado, amigos poderosos, ajudaram-no a seguir adiante. Seu nome foi indicado várias vezes para o prêmio Nobel, lamentavelmente, morreu sem ver prêmio algum. O último sobrevivente da velha guarda, Gerônimo T Mattos, um médico que nunca exerceu a profissão, foi visto na cidade de B, dias atras, arisco como um bode velho que nunca comeu na mão do dono, finge-se de caduco. Do passado nada fala. Conselheiro de J. Vilella, era antipático perante aos olhos da Atriz. Avesso a qualquer aparição pública, inimigo de festas, era considerado severo demais. O mundo do casal Dora e Vilella, não fazia parte do seu. O casal eram dados as festas longas e muitas bebedeiras alegres. Em fim, era um casal badaladíssimo. Resta agora a policia fazer sua parte.” _ Terminava a reportagem com mais algumas especulações. O resto do dia foi de uma espera angustiante. Lá pelas tantas da tarde Assis apareceu com a informação que cidade estava cheia de investigadores. Na noite, no começo desta, a televisão mostrou no noticiário uma testemunha que garantia de visto o rosto do assassino. Era uma amiga de filmagens de Dora Lopes. Veja. “Estamos aqui ao lado da atriz Mara Márcia, amiga da também atriz Dora Lopes, encontrada morta em sua casa de férias, na madrugada passada. A Senhora afirmou ter visto um homem, na manha de ontem, conversando com ela e, que este homem não fazia parte das filmagens. A Senhora confirma isso?”. “_ Sim. Já disse ao delegado. Fui lavar as mãos na parte de traz da casa, e encontrei os dois conversando tranqüilamente. Não dei importância ao fato. Ela estava tão tranqüila! Só depois que a policia passou a fazer as perguntas, é que me lembrei do fato”. “_ Poderia nos dizer qual era o tipo físico deste homem?”. “_ Alto, forte, moreno claro, como todos nativos daqui. Tinha um pequeno bigode, cheio e bem feito, deveria ter entre quarenta a quarenta e cinco anos. Não mais.”. Foi a primeira vez que tínhamos a certeza de que se tratava do assassino. Batia certinho com o que nos havia dito a pequena mulher das galinhas roubadas, que não havíamos levado a sério. _ Amanhã teremos o retrato falado dele nas mãos. Aí o pegaremos._ Disse Assis. Estava certo. No dia seguinte, quando o retrato saiu, foi logo reconhecido. Era um homem que sempre acompanhava Andreia. Seu nome: Clodoaldo da Silva. Um prêmio foi oferecido para quem desse qualquer informação sob o paradeiro dele. Ao meio dia Assis apareceu com o rosto fechado, contrariado. _ Acabou! Não se entregou. Saltou de cima de umas das pedras mais altas, perante os olhos incrédulos dos banhistas. Esteve entre eles desde as primeiras horas da manhã. Ouve o cerco policial. Escolheu o ponto mais alto e sentou-se. Parecia esperar. Não aceitou qualquer proposta para se render. Durante duas horas tentamos um diálogo. Lançou um olhar triste pelos campos e mergulhou para morte! Outra cena arripilante! _ Terminou Assis, abatido. Não pela morte do assassino, acredito, mas sim por não traze-lo com vida. A diferencia é que um bom policial não traga consigo o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Estivemos sempre no caminho certo. Tudo havia começado com a morte do chantagista. O assassino, como disse o padre, estivera dormindo por anos, na pele do protegido de Andreia, desde garoto, que depois tornou amante da filha. Chantageada não pensou em pagar resgate algum. Talvez ele tenha ouvido a história pela boca de sua amante. Foi o bastante. Lembrou do tempo em que dera cabo em dois homens que ousara espanca-lo. Fácil. De posse de uma machadinha dera fim no que tentara brincar com sua amada. O jovem ladrão de galinha tivera o asar de estar no local na hora errada. Até aí neste ponto ele ainda cuidava para não ser reconhecido. Dera cabo também na testemunha. E Andreia, porque a matou? A explicação mais lógica é que ela soubera do ocorrido, não aprovando o método usado. E que também poderia ter ficado furiosa com o fato de saber que era ele o amante da filha, ameaçando expulsa-lo. Como disse Assis, não estava nos planos dele matar Andreia. Foi só ele perceber a presença de Teodoro, para dar inicio a sua vingança. Sabendo que não poderia mais ter sua amada, resolveu por em prática um antigo plano de vingança. O hora era aquela. Estavam todos reunidos, como no passado. Só não poderia tocar em J. já estava morto. Morta Andreia, o seguinte seria o próprio Teodoro, que o reconheceu, e ao saber que ele estava ao lado dela, tentou avisa-la do perigo que estava correndo. O bilhete que caíra nas mãos do delegado, como uma ameaça, era na verdade um aviso. Matar Teodoro fora fácil. Incendiara a floresta e o despendurara-o ali. Porque não parou? Tudo não dera certo como planejara? Não. Nada mais lhe dizia qualquer sentido. Em frente. Restava Dora Lopes. Não houve dificuldade em aproximar se dela. Sem querer ofendê-la, o passado nos condena. Lógica dos crimes? Não existe. Clodoaldo era aquele garoto abandonado pelos pais. J não gostava dele. Tinha lá suas razões. O garoto era bem visto pelos olhos da atriz, que o levava nos fins de semanas para sua casa. Foi quando alcoolizado o pegara, mandando que os dois amigos americanos desse lhe uma boa surra. Estes dois foram os primeiros. Logo naqueles dias, sabendo que estava protegido por Andreia, e que Teodoro estava pagando pelo crime que ele praticara, restava ficar quieto, esperar uma nova chance para depois acabar com todos. Quanto a mim, não sei por que não tentou contra minha vida. Talvez, como um animal ferido que lambe a mão e seu curador, por agradecimentos, poupou-me. Nos tempos depois que se passaram estas mortes, ficou marcada para o grande público somente a da grande atriz. Dos outros, foram esquecidos. Não falavam de chantagista, do jovem ladrão que roubou algumas galinhas para festejar o aniversário de sua amada, de Andreia que tinha o coração de ouro, que seu grande pecado fora dar ajuda a alguém sem olhar quem. De Teodoro, o sonhador que fora apunhalado por todos nós, que na sua humildade, confiou, foi traído e perdoou. Uma cortina de fumaças foi colocada sobre eles. Então, uma outra história fora criada. Uma mais romântica. Então, ela, somente ela, na sua carência louca de carinhos, que dera liberdade para o coração ouvir um sonhador, um João ninguém mentiroso que não soube contentar-se com um pouco de carinho, e que na sua mesquinhez matara a grande estrela, ouvia-se a quatros ventos. E, como na arte que imita a vida, não passavam de meros figurantes. Fim. Direitos reservados. Benjamim R Santos.

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

O ROUBO DAS SETE FACAS

Minha intenção era manter fora do caso, mas a tolice de comprar cigarros do outro lado da rua mudou o rumo dos meus planos, me envolvendo no episódio. Atravessei a rua e comprei um maço de cigarros, ascendi um e fiquei olhando as belas garotas com os rebolados insinuantes. Levantei os olhos e levei um susto. André, o homem de confiança do chefe, com seus óculos escuro e idiota aproximava-se de passos rápidos. Era tarde demais para escapar. _ Venha comigo _ disse de rosto fechado, puxando-me pelo braço. _ Que há? Tenho uma semana de folga. _ disse a ele, amaldiçoando minha burrice. _ Não tem mais. Por enquanto. As coisas complicaram. Todas as tentativas de recuperar as malditas facas falharam. O chefe quer vê-lo. Fomos então ter uma reunião de portas fechadas. Lá estava o secretário de justiça, um coronel da policia militar, o delegado Cristiano, civil, dos roubos e furtos. Nosso chefe, o delegado da federal, Fabiano Costa. E mais quatro policiais que estavam envolvidos no caso. _Estes malditos jornalistas! Estão em todas as partes! Até parece que os bandidos somos nós! Estava exagerando. Logo ele que era dado em ficar à frente de uma câmera ._ Venha cá Rodolfo, precisamos de você, rapaz. Sabemos que é muito inteligente. -disse me ele, com estas palavras aveludadas. _ Continua sendo amigo do velho urubu, não? __ Encontro-o às vezes Se quiser, posso falar com ele. Ele falara com você... _ Não, não. Fale com ele. Diga que o caso e seu. Faça com que ele dê lá sua opinião. Lembrei então que havia certa divergência entre ambos. _ Falaremos de suas férias depois. _ balancei a cabeça. Entendi bem as ordens. O roubo das sete facas de ouro, do ministério da fazenda, fora uma tremenda dor de cabeça. Um jogo de empurra de lá para cá, acabou envolvendo vários personagens famosos do momento. Quando o caso veio à tona foi um deus nos acuda. O governador veio à luz para dizer que o caso seria resolvido rapidamente. O secretário da justiça jogou a bomba para nós, os federais. Uma semana mais tarde, estávamos todos reunidos, federais, civis e militares. Oito detetives particulares vasculharam o submundo do crime. Nada. Nem uma pista pequena que fosse foi encontrada. As sete facas que sempre estivera dependurada em uma parede da sala do delegado da fazenda desapareceram como em passe de mágica. * * * Procurei então me enfornar sob as tais facas. Uma história então escamosa veio à tona. Em 1888, ano da independência, um antigo dono de uma mina de ouro mandou fazer as tais facas, quatorze aos todas, incluindo um grande facão, um machado e outros apetrechos menores, insignificante para a época. Com a morte do idealista, sete facas passaram para as mãos de filha, que tinha por marido, um coletor de imposto. Trambiqueiro e esperto, logo acumulou uma fortuna, com o dinheiro arrecadado. Em 1912, cometeu um erro fatal, apaixonando-se por uma moça de sociedade, deixando a esposa de lado. Enciumada foi procurar o governador, expondo lhe o caso, falando mais um pouco, do tal desvio do dinheiro. O coletor foi chamado então para dar explicação. Encurralado e com vergonha de ter o nome sujo na praça, principalmente perante a bela e nova namorada, ofereceu as facas para quitar as contas, desde que elas estivessem sempre a vista de quem entrasse em uma sala de coletor de imposto. A proposta fora aceita. Pouco depois elas estavam enfeitando as paredes do gabinete do governador, e dali para ficar sumida por várias décadas, ate aparecer novamente na sala do delegado da receita federal, nos meados dos anos setenta, de onde sumira. Poucos sabiam de seu exato valor. O antigo registro de seu peso real desaparecera com o passar dos tempos. Um antigo zelador, de quase noventa anos foi trazido às pressas para dar sua opinião sob as tais facas de ouro. O que ele disse causou espanto a todos. “Três quilos e seiscentos gramas de ouro, um quilo de prata, quarenta e dois diamantes de cinco pontos cada. Conheço bem sua história. Limpei-as durante trinta anos!”. O delegado então pediu silencio. O velho não podia estar dizendo a verdade. Eram apenas uns enfeites baratos, alguns metais pesados com uma leve camada de ouro. Disse ele tentado livrar-se da acusação de irresponsável por ter deixado tamanho valor dependurado em uma parede ao alcance de todos. _ Conheço bem sua história. _ teimou o velho, que foi mandado pra casa as pressas. Mais era tarde demais. A história caíra nos ouvidos dos jornalistas e o caso saiu e todos os jornais, citado pelo velho centenário. Uma outra tal história era mais suja que a anterior. Falava que ela pertencera a Pascoal Moreira Cabral. O segundo descobridor das ricas minas cuiabana. Este vendera as para um caçador de índios, por que eles foram realmente caçados nesta época, para a nossa vergonha. Em posse das tais facas ele conseguira então uma manada de cavalos, vinte e uma índias jovem, cento e sete masculinos e mais um bocado de vantagens que nego em dizer. O novo proprietário, como o coletor, se ferrou por não escapar do charme feminino. Apaixonado, fez a besteira de adentrar-se por entre as pernas de uma jovem que era filha de um valentão cercados por mais de trintas de sua espécie. Com medo de Perder os bagos, negociou a virgindade, pagando-a com as facas. Seja qual for à história, o fato que agora no presente, ela causava um rebuliço terrível e punha em jogo a eficácia da policia. Doze dias após seu desaparecimento, um telefonema veio a mostrar uma pequena luz no fim do túnel. Era para um alto funcionário do ministério. _ Querem as facas de volta? Preparem cem mil dólares. _ disse a voz por traz de um lenço dobrado. _ cem mil dólares? Estão loucos! _ foi a frase mais comentada, após a ligação. No dia seguinte fui ter com o chefe. _ E o Morim, achou-o? _ Sim. Vai me receber esta tarde. _ Então se apresse. Não podemos falhar desta vez. Nosso nome esta em jogo. Peça para ele ser discreto, aquele safado! As quatro de tarde encontrei com o Doutor Morim. Trazia na mão uma fatia de mamão. Um pouco mais afastado estava Abraão, com um jornal enfiado no rosto. Afastou-o e me olhou penalizado. Apontou uma cadeira onde me estalei, cansado. _ Então? Mandaram você, Rodolfo? Aceita uma fatia de mamão? _ Sim, mandaram. Não. Obrigado. _ Então falharam...Vocês complicam tudo. E as drogas? Porque não acabam com as drogas? _ Dei de ombros. Não estava ali para discutir falhas no órgão. _ Já devem estar sabendo a quantia que foi exigida. Cem mil... _ Sim, sabemos. Estão brincando com vocês._ disse ele maneando a cabeça enfiada na fatia. _ Brincado? São de ouro maciços, cravados com diamantes! _ Não diga! Dependurada em uma parede de um órgão público? Hum...! Seria possível? _ ele jogou o resto da fatia em um cesto e pôs-se a andar pela sala. _ ouviu o que ele disse, meu velho? _ disse ele dirigindo a Abraão. _ Alguém sabia que as peças eram tão valiosas? _ indagou Abraão olhando para mim. _ Parece que ninguém sabia. Acreditavam que fosse apenas um enfeite de um metal mais barato, folheado a ouro. _ digo. _ Sim. Entendo. Mais alguém sabia. E se aproveitou dessa inguinorância. _ você esta pensando o mesmo que eu? _ ambos se entreolharam em silencio. E depois para mim. _ Pois bem, meu velho. Vamos ajudá-lo. Por você, Rodolfo. Por você! _ Obrigado. _ Comece então trazendo-nos uma planta do andar do onde esta estar estalado o ministério. __Esta bem. _disse e fui cumprir a tarefa. No dia seguinte, as sete da manhã, lá estava eu com uma planta na mão esperando os dois. Olharam pensativos. _ O que tem neste espaço vazio aqui? _ Um pequeno jardim suspenso. Três por três. Tem dois jarros grandes com coqueiros ornamentais, e dois canteiros com flores. É cercado com grades pelos lados. Não tem saída. _ Isto não tem importância. _ comentou o Dr. Morim. _ Sim. O ladrão entrara, pegara as facas e saíra pela portas principal._ comentei sem pensar no que realmente dizia. Em troca, recebi olhares irônicos. _ voltarei depois do almoço. Se não se importam. _ Vá. Quando voltares, já teremos resolvido o caso. Saí apressado. Tanta confiança assim no taco, deixava-me desnorteado. As duas da tarde, tive a confirmação, a contra gosto, que era eu o homem de pouca fé. _ Bem, Rodolfo, seu caso esta quase resolvido. Sabemos onde se encontra as tais facas. Vá e espere novos contatos. Concorde com ele. Negocie sério. Porém, ceda. Vamos pegá-lo. Na manhã do dia seguinte recebi um telefonema do Dr. Morim. _ Espere por nós em frente ao prédio do ministério. _ disse ele, enfático. Encontrei os dois com os jornal enfiados na cara. _ Os grandes jarros dos coqueiros serão descidos para troca de terras, rapaz. _ disse-me ele passando-me o jornal._ aconselho você a colocar seus homens pelos arredores. Vigie bem estes vasos. Terá o seu homem e suas facas valiosas. Fiz alguns telefonemas, e para minha surpresa, pouco antes do meio dia, escondidos, eu e mais dois policiais, pegamos o esperto homem. Jogou a colher de pedreiro em que revolvia a terra, para um lado e rendeu-se sem muito trabalho. Tratava-se de um antigo funcionário do ministério. Pouco mais tarde, nosso chefe, o Dr. Fabiano dava uma entrevista coletiva. Parecia satisfeito quando o encontrei. _ Muito bem, Rodolfo. Belo trabalho! E o velho urubu, como vai? _ Vai bem. Mandou-lhe lembrança. _ Menti. _ É mesmo? Quem entende aquela praga? Pelo ao menos serve para alguma coisa. Que fique para lá. Quero é distancia dele. Se eu fosse você faria o mesmo. Aquele sujeito da azar. Assenti com a cabeça. Chefe é sempre o chefe. É a primeira lição que aprendemos quando entramos para a academia. De posse de alguns belos mamões, encontrei novamente os dois. Recebi um estranho agradecimento: _ Você é sujeito esperto, Rodolfo. Fim. Benjamim Rodrigues dos Santos.

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

NADA MAIS QUE A VERDADE. O corpo estava caído ao lado da geladeira, de bruços, com as mãos para frente, como se tivesse dormindo. Os cabelos negros jogados por cima do rosto, deixavam a mostra uma pequena parte deste, do lado do braço estirado. O sangue que havia escorrido por todos os lados, deixara a cozinha de luxo com um ardor insuportável. O médico legista afastou uma pequena mexa do cabelo, deixando aparecer uma pequena parte do rosto, como de uma grande boneca quebrada, olhos abertos, opacos, sem nada enxergar. _ Ela mesma! Meu Deus! Que diabos aconteceu aqui? _ exclamou este se levantando. _ Quantas facadas, doutor? _ Várias. Algumas fatais. Não posso afirmar ainda, mas parece que todas foram desferidas pelas costas. _ Morim olhou ao redor. Três ou quatros latas de cervejas, uma pequena garrafa com resto de bebida de cor indefinida. Um copo caído com o líquido escorrido, várias bitucas de cigarros dentro de um cinzeiro de barro queimado, cuidadosamente arrumados. Olhou as cerâmicas por cima do lavatório de pratos. Examinou a torneira cuidadosamente. Abaixou e retirou o sifão, deixando que o resto de água parada escorresse pelo chão. Depois caminhou para a saída da cozinha em direção aos outros aposentos. No corredor encontrou com dois outros policiais. Examinavam os pisos e paredes e portais. _ Onde esta Abraão? _ indagou enquanto passava os olhos pelo grande corredor. Olhou de relance os quadros pendurados em forma de degrau. Contou vinte e dois ao todo. Paisagens regionais, alguns índios seminus, e muitas flores. _ No primeiro quarto à esquerda. Morim lançou um olhar pelo o quarto. Uma cama de casal, uma mesinha com um telefone, um grande guarda-roupa, uma grande janela coberta por uma cortina de cor cinza. Afastou-a um pouco. Lá fora uma pequena piscina de águas claras cintilava à luz do sol em reflexos. Passava pouco das seis horas da manhã. _ Ele se lavou no banheiro. _ disse Abraão ao seu lado. _ O que se passou aqui, Abrão? Não esta sentindo que esta faltando alguma coisa? _ Há alguma coisa que não esta se encaixando. Olhe para a cama. Manchas de sangues. De quem será? Estaria ele ferido? Reparou na roupa dela? Esta usando um belo vestido para festas. Não estavam em casa? Bastava uma roupa mais íntima! Talvez estivessem em uma festa. _ disse pensativo. Morim curvou-se sobre o lençol, olhando-o cuidadosamente. Manchas de sangues quase em fileiras, enigmáticas, desafiadoras. Ergueu os olhos e fitou o companheiro. _ Lembra-se quando éramos adolescentes e olhávamos as estrelas, procurando alguma coisa escrita nelas, sem jamais encontrar um significado real? Estas manchas me fizeram recordar tais fatos. Não parece cuidadosamente arrumada? _ Sim. Agora preste atenção. Ele se lavou no banheiro, mas... Há uma toalha limpa, dependurada. Como pode? _ Vamos esperar os exames para seguirmos em frente. _ comentou Morim esfregando os olhos._ vamos esperar para ver quem são as outras peças do quebra- Cabeça. Aí então montáramo-lo Resta-nos apenas descansar. * Pouco depois da uma hora da tarde ambos estavam curvados sob alguns papeis. _Crime de gente grande. São sempre cheios de truques baratos. Acham sempre que pode enganar a policia. Quando trata se de pobre, a opinião do público é sempre as drogas. É desvio de conduta causada pela falta dos neurônicos mortos. Sabemos muitos bem que a bendita droga esta em todas classes sociais. Veja só quem é a vítima, Abrão. Eva Zacarias. Terceira filha do empresário Augusto Zacarias. Vinte e seis anos. Casada com Heitor F. Borges. Formada em administração de empresas, jamais exerceu a profissão. Alegre e descontraída, era querida de todos. Não há quaisquer detalhes sob inimigos. Como uma beldade como aquela podia ter inimigo? Não devemos descartar que alguém podia matá-la tentado magoar o velho Zacarias. Sabemos que estes grandes homens não medem custos para alcançarem seus objetivos. Isto incluem passar por cima seja lá de quem for. Isto gera certas inimizades. Não é muito agradável julgar e medir a todos com um só gabarito. Mas que sejam todos culpados até que provem ao contrario. Fez sua fortuna vendendo bugiganga porta em porta nos anos sessenta. Dez anos depois montou seu primeiro negócio fixo. Hoje é um dos maiores atacadista do estado. Parece honesto. A receita nada encontrou errado em seu negócio. Olha só que contraste! Um raro caso de conto de fadas! Aos avessos. A Cinderela, neste caso trata-se de um homem! _ Heitor f. Borges, trinta anos, suposto assassino. _ Deve ter nascido em noite de lua cheia!_ Foi balconista de farmácias, motorista classe B, garoto de recados de um salão de beleza. Entrou para empresa do velho Zacarias como empacotador esperando uma vaga como motorista de entregas. Foi aí que caiu nas graças da filha do patrão. Não pensou duas vezes, casou um ano depois. O velho sogro o colocou como supervisou pelas filias. _ Bastante esforçado este rapaz!_ Viajava muito. Era considerado um sujeito de confiança do sogro. Falava-se que seria o sucessor do sogro. _ Neste ponto aqui, a lógica falha. Porque ele mataria a galinha dos ovos de ouro?_ Das velhas amizades feitas na juventude, não conta nenhuma. Parece que tinha a intenção de passar um pano limpo no passado. _ Que o envergonharia para fazer isto?_ Talvez nada. Com o pensamento de uma carreira promissora, só restava pensar que os amigos pobres iram mais atrapalhar que ajudar. Sem dúvida daria um ótimo empresário! Não é a primeira vez que um marido mata uma esposa por ciúme! Ate agora não há nada que prove ao contrario. Ele esta sendo cassado como o principal suspeito. Foi feito um rastreamento dos passos dele no dia do crime. Chegou um dia antes, como era seu costume, esteve com o sogro antes de ir para casa, só encontrou a esposa na noite da chegada. Nota encontrada mostra que ele comprara um anel de brilhante para presentear a esposa. A empregada Maria das Dores confirma a história. Diz também que o clima entre o casal não era o dos melhores. Discutiam algumas vezes. Durante o dia do crime Eva saíra de manha e não fora vista mais. O marido almoçara só. Segundo a doméstica, nada de estranho parecia ter com Heitor. Ele saíra antes das quatro da tarde. Quando Maria das Dores deixou a casa, às seis horas, ele ainda não havia retornado. _Nada de estranho neste fato. _ Esteve bebendo no bar que freqüentava a duas quadras abaixo da empresa do sogro. Não ficou muito tempo. Uma discussão com um funcionário da própria firma pôs um ponto final na conversa. Ouça o que disse o garçom aos nossos policiais. “Quando o Sr. Heitor chegou, o Sr. Godim já estava no bar. Já tinha tomado quatro cervejas. Tomaram mais duas cervejas, foi quando o Sr. Heitor levantou e derrubou os copos de cima da mesa. O Sr. Godim gritou”: Você vai voltar a ser motorista novamente!”“. _ São Palavras do garçom porque iria mentir? Vamos analisar um pouco este Sr. Heitor”. _O que teria deixado tão fora de si para fazer o que fez? Pelo que foi ouvido das pessoas que o conheciam muito bem, isto não era próprio dele. É considerada uma pessoa calma. Era. Como é de costume, algumas pessoas estão mostrando o lado negro da mente, dizendo que ele era uma pessoa muito estranha._ Antes da tragédia era normal. Humanos são humanos! _ disse Morim esfregando os olhos irritados. Nada dormira desde a meia noite. Abrão estava sentado com as pernas espichadas, olhos fechados parecendo cochilar. Mas estava acordado. _ acho que o melhor a fazermos é almoçar e tirar um pequeno cochilo. _ sugeriu bocejando. Este caso vai dar muito panos para as mangas do bebê. _ Boa idéia, meu velho! Discutiremos o caso mais à noite. Saco vazio não para em pé! Vamos devorar alguns bifes e uma boa salada com fatias de mamão! * _ Temos aí a mãe de Heitor, Morim. Esta só. Dê uma olhada nela. Parece uma pessoa bastante descente. Esta nos esperando já faz uma meia hora _ disse Abrão. _ Meia hora? Mas como podem deixar uma senhora ficar tempo à espera? Temos fila aqui também? É esta a nossa cultura, Abrão, concordar com a burocracia? Longa espera em delegacia é tortura psicológica! Quando iremos conseguir mudar a mentalidade destes nossos policiais? _ Morim foi até a janelinha de vidro negro e olhou através dele para grande sala entupida de gente. _ Esta vestida de azul. _ disse Abrão. Morim ficou olhando-a por alguns segundos. Maneou a cabeça, insatisfeito. _ Dizem por aí que somos sujeitos cruéis. Será que estes linguarudos acham que nunca tivemos mãe? Olhe para o rosto dela! Como esta sofrendo a coitada! Vá buscá-la, homem! Vejamos como poderá nos ajudar. _ Morim ficou no mesmo lugar. Quando Abraão entrou com uma senhora curvada, de passos inseguros, foi ao seu encontro. _ lamentamos que a tenham feito esperar tanto, minha senhora. É o velho mundo ainda de pé. _ disse ele todo elogio. _ Concordo que a espera em qualquer parte é bastante desgastante; mas em hospitais e delegacias é simplesmente cruel! Mas não estou aqui para tentarmos resolver este problema, doutor! Tenho ouvido falar bastante sobre seu modo de agir! Sei que o senhor é um policial justo! O senhor tem que me ajudar! O meu filho é inocente! Ele não matou Eva! Meu Deus, como podem acreditar nisso? Ele a amava! Amava muito! Ela era sua vida! _ Mantenha se calma, minha senhora. Entendemos muito bem a situação em que se encontra. A verdade. Somente a verdade nos interessa. Às vezes a verdade dói mais que a mentira. Algumas pessoas frágeis a preferem por ser um caminho sem pedras! Buscamos sempre a verdade. Doa ela a quem doer. Lamentamos que isto também lhe diga respeito. Não devemos esquecer dos pais de Eva. Deve imaginar o quanto estão sofrendo. Se não foi Heitor quem a matou, uma outra pessoa foi, com toda certeza. Quanto a seu filho, seria bom que ele se entregasse... Um bom advogado... _ compreendo, mas...Não...Não podemos confiar... O velho Zacarias é bastante influente. O Senhor Sabe o que quero dizer... Os poderosos... A lei os protege.E também não sei onde ele se encontra. Gostaria tanto de ajudá-lo um momento como este! _ A senhora tem outros filhos? Alguém que lhe faça companhia? _ minha filha caçula. Ela não sabe que estou aqui. Ontem à noite mencionei meu desejo de vir aqui hoje, ela ficou bastante nervosa. Porque os senhores não nos façam uma visita amanha? É para sabermos como estão andado as coisas.-_ Morim fez um positivo com a cabeça. _ É melhor que volte para casa e procure descansar. O caso esta em nossas mãos. Pouco depois ela deixava a delegacia. Ambos ficaram a olhando sair. * Abraão olhou os papeis que tinha nas mãos e franziu o cenho. Jogou-os sobre a mesa e fitou Morim, que parecia cochilar, cabeça baixa, queixo encostado no peito. _ O que há de estranho no homem, meu velho? _ Disse ele levantando a cabeça. _ O sujeito é mais comum que possamos supor. Oito anos trabalhando na firma do velho Zacarias, jamais fez um curso profissionalizante. Usa roupas de grife, tênis da moda, cabelos aparado todos os fins de semanas, é solteiro. Todas as garotas de programa de cidade o conhecem. Trata-as muito bem. Não reclama do preço exigido por elas. Algumas recebem algumas flores antes do convite amoroso. O único defeito notado por elas é que ele é metódico demais. Vai para a cama sempre na hora certa, levanta na hora programada, e não gosta que alguém interfira. Exige respeito pelos seus ábitos. Algumas delas não gostam dele. Queixam-na de sua higiene exagerada. Esta sempre lavando as mãos, se não tem água, limpa com um uma pequena toalha que usa para enxugar o suor do rosto. Voltado ao seu trabalho, ele não esta subordinado a gerencia da empresa, mais sim da esposa do velho Zacarias. Falando em português claro, é um protegido dela. Dizem que a única razão para o velho aceitar tal fato, é que ele esta na firma há muito tempo, inclusive nos tempos da vaca magra. _ Segunda esposa do velho Zacarias. É bonita? _ indagou Morim. _ Não, não tem mais aquela beleza da juventude. É séria demais. Tem um rosto fechado por trás dos óculos escuros. _ Conhece alguma pessoa rica que não gosta de se esconder por traz de um óculo escuro? _ Como estava dizendo, Morim, tudo muito comum. _ Vamos agir, Abraão. Vamos ver o que esta escondido por trás deste ilustres personagens. Chame o tal Godim. Ele já está por aí? Vamos ver o que tem a nos dizer. _ pouco depois um homem alto de porte atlético estava sentado em sua frente. Morim olhou-o cordial _ lamentamos o incômodo Senhor Godim. Parece-me que acordou agora pouco. _ disse apertando-lhe a mão. _ Sim. Menos de meia hora. Deito e levanto-me nas horas certas. Um velho costume. Isso faz com que o organismo trabalhe em harmonia. _ O senhor é um homem de sorte. Gostaríamos muito de adquirir este bonito ábito. Lamentavelmente temos a vida uma tanto agitada. Sabe como é. Os crimes não têm hora certa para acontecerem! O senhor não acha? _ Nada sei sobre este assunto. Gosto dos livros policiais. Somente como diversão. Não perco meu tempo tentado adivinhar quem matou quem. Embora sei que o criminoso é sempre a pessoa que menos se espera o leitor. Não sei se na vida real também é assim. Se forem estamos perdidos! _Um truque barato usado pelos escritores, Sr. Godim. Se não for assim, onde entrará o mistério da coisa? _Podem muito bem colocar o assassino em primeiro plano. Senão tudo se torna muito corriqueiro. _ Também concordo com esta hipótese. Seria um belo drama com dez linhas. Suponhamos que o assassino de Eva Zacarias fosse o senhor. Bastaria eu dizer o motivo que o levou a matá-la, e o caso estaria encerrado. Que me diz? _Digo que o senhor iria precisar de uma bola de cristal. Devemos concordar então com os escritores policiais. Onde ficarão os detalhes das investigações? E as provas do crime? _ Tem razão, Sr. Godim. Tens toda a razão. Era amigo de Heitor? _ Sim. Pelo menos era o que tentávamos ser. Trabalhamos para o mesmo patrão. _ Pelo o que sabemos o Senhor Recebe ordens da esposa do Sr. Zacarias. _ Sim. Estou diretamente subordinado mais a ela que ele. Faço parte de sua equipe. Da sua repartição. _ Pode nos dizer o que aconteceu na noite em que estavam bebendo, a duas quadras da empresa? _ Tentei dar-lhes alguns conselhos. Ele apelou. Disse que estava muito magoado com Eva, que queria a separação. Disse-me que estava a fim de lhe dar alguns bofetões. Disse a ele o que ele estava procurando era voltar a ser um motorista novamente. Só isto. _ Acha que Heitor a matou? _ O ciúme é uma doença grave. Porque não? _ Porque ele sentiria ciúmes? Ele desconfiava da esposa? _ Não sei nada disso. O senhor já deve ter ouvido um velho ditado popular que diz mais ou menos assim: se não que perder um amigo, feche os olhos para os passos sua mulher. _ Sim, sim. Conheço o ditado. Mais que bons amigos, melhores inimigos. _ Não entendi, doutor. _ Estou dizendo que nem todo o amigo gostaria de continuar na escuridão. É um caso de consciência. Sr. Godim. Nem um amigo verdadeiro iria ficar em cima do muro em uma hora destas. Parece-me que o Sr não é amigo dele. _Não esta provado que ela o traia. Esta? _ O Senhor É que levantou esta idéia. _Eu? Longe de mim tal blasfêmia. Fatos são fatos, não são? * Silvia Lemos desligou o carro e suspirou profundamente. Seu marido ao lado, manteve quieto, olhando um ponto inexistente em sua frente. _ Tome cuidado..._ disse baixinho. _ Esta temendo o que? Acha que sou alguma tola? Você não a matou! _ Esta sendo tola agora! Sabe bem que não estou falando disso! Não sabe quem é este policial. Ele é cheio de truques com as palavras. Quando você menos esperar ele já arrancou sua confissão! Tome cuidado! _Mantenha se calmo, meu bem. Tudo vai dar certo. Vamos torcer para que ele coloque logo o assassino atrás das grades._ disse ela dando um beijo no rosto dele. _ Cuidado...! _ tornou ele_ muito cuidado! Ela maneou a cabeça e deixou o estacionamento com passos seguros. Pouco depois estava estalada em uma cadeira em frente de Morim. _Lamentamos incomodá-la, Sra. Silvia. Vejo que esta muita abalada com a morte de sua amiga Eva._ disse ele todo deleito com ela. Estava deveras impressionado com a beleza dela. Olhou de soloio para Abraão que parecia mergulhado em papeis. _ Sim. Muito. Não consigo aceitar tal idéia de que ela se foi. Não se importe com o meu choro, Dr. Morim, mais estou realmente sentido muito. Ela era minha melhor amiga. Éramos inseparáveis. Éramos como irmãs. _ Como era a Sra. Eva? Estou falando de seu caráter. _ Maravilhosa. Meiga como uma criança de colo. Porém, infeliz. Heitor a magoava muito. Era mulherengo demais. _ Demais? A Sra. Esta dizendo que um pouco mulherengo é aceitável? _ Qual o homem que não traem sua esposa? Pobre Eva! Como pode aceitar tanto? Ele não era ninguém! _Não era ninguém em que espectro, minha senhora? Financeiramente, ou como marido? _ _Me desculpe, Doutor Morim. Não devia ter dito a frase. É que sinto tanto ódio dele...! _ Foi testemunha de algumas de suas brigas? _ Muitas. Ela sempre abaixava a cabeça. Falava em deixá-lo. Depois dizia que não podia. Amava muito ele. Era o que dizia. _ Ela mantinha um outro caso paralelo ao casamento? Tinha um namorado? _ Não! Por Deus! Como pode pensar uma coisa dessas? Jamais! Se ela tivesse, eu saberia. Gostaria que o Sr. Não mais batesse nesta tecla. _ Alguém matou sua amiga, minha senhora. O que estamos procurando é apenas a verdade. Somente a verdade. Se tem tanta certeza que ela não tinha um outro homem, porque temer? _ Ela esta morta! Não esta aqui para se defender! Estou pronta para desmentir qualquer tipo de calunia que tentarem colocar sobre ela! Coloque aquele mostro atrás das grades! Não merece a liberdade. Oh, meu Deus! Como é difícil falar sob isto! _ Sim. É bastante desagradável. Infelizmente temos que seguir adiante.Esteve com ela no dia do crime? _ Sim. Conversei um pouco com ela na parte da manha. Estava normal. Disse que Heitor havia saído para comprar alguma coisa. Não disse o que era. Se disse, não me lembro. Fiquei tão chocada com o fato que minha cabeça parece não estar funcionando bem. _ Talvez Maria nos possa dar mais detalhes.- comentou ele olhando-a rapidamente. _ Quem doutor? _ A empregada, minha senhora. Falha-me na memória o nome inteiro. _Hã, sim. Maria das Dores. O que ela poderá lhe disser de útil doutor? E quase analfabeta...! _ Talvez a verdade, madame. Não descartamos qualquer carta que seja do baralho. Pode nos ser útil a qualquer instante. _Estou dispensada? _ Esta dispensada, minha Senhora. Manteremos o contato. Assim que ela saiu, Morim olhou para Abraão. _ Que diz? _ Ela esta escondendo alguma coisa. Mais tarde ouviremos a fita. Como é bela! _ Sim. Muito bela. … * * * Abraão esperou que as crianças que saiam de uma escola passassem e seguiu novamente em uma marcha leve, devagar. Morim olhava as fachadas das casas tentando encontrar o numero exato em que procuravam. _Que contraste! Como podemos viver em dois mundos num mesmo teto? Qual é a sensação de uma pessoa que tem muito alimento em sua mesa ao saber que a do vizinho esta vazia, com crianças chorando ao redor desta com fome, hein, meu velho? _Não sou a pessoa certa para falar sobre o assunto. _ Sim.Não somos. Veja estas casas. As maiorias estão sem calçadas nas frentes. Isso não seria um caso de ajuda da parte da prefeitura? Pelo ao menos manteríamos as ruas limpas. Uma pena! _ Esta é a rua. O número é 1564. Heitor cresceu por estas ruas.Poderia ficar escondido por aqui por um longo tempo. Isso até alguém denunciá-lo. Muito provavelmente esta por aqui. Talvez em uma casa de uma antiga namorada. Vamos deixá-lo em paz. Interessa mais ouvir sua irmã. Continuo achando as cunhadas uma cunha de aroeira, quando encrava entre os casais, dificilmente sai. Aí esta a nossa casa, Abraão. Simples como imaginei. Um pouquinho melhor que as outras, mas simples. Olhe lá! Esta vendo o que estou vendo? Estamos feitos! Mamão e dos belos! _ Terminou morim entusiasmado. Desceram do carro e esperaram a velha senhora aparecer. Quando ela chegou ele pôs se ao trabalho de elogiar o mamoeiro. _ Que belo mamoeiro, minha senhora! Jamais vi mamões tão grandes! Devo dizer que me sinto envergonhado em pedir um destes belos exemplares! _ Ora! Fique a vontade! Pedirei ao garoto do lado que tirem alguns para o senhor. _ Obrigado! _ Disse Morim olhando o semblante triste da mulher. Parecia que não havia dormido bem nas últimas noites. Ela fez um gesto com a mão, e ambos a seguiram silenciosos. Depois de acomodados, ela comentou num lamurio seu desgosto por ser mãe de um procurado pela lei. _ Tudo isto parece um pesadelo! Não consigo mais sair de casa. Todo mundo me olha como se fosse um mostro! Até os velhos amigos de outrora se afastaram! Que culpa tenho eu? Meu filho é culpado? Posso lhe afirmar com coração de mãe que ele não a matou! Somos religiosos! Meu filho foi criado longe da violência, começou a trabalhar muito jovem ainda! Estava tudo indo tudo muito bem para ser verdade! _ Sabemos da dificuldade que nós, policiais, temos em passar para os cidadãos certa confiança, mas acredite, o que queremos é desvendar o caso mais rápido possível. Isso é bom para a senhora e para todos. Se ele não foi o assassino, a verdade, cedo ou tarde ira aparecer. Para que isto aconteça, o melhor a fazer e que ele se entregue. Procure um bom advogado para lhes orientar. A Senhora Tem falado com o Sr. Zacarias? _ Minha filha tentou. Já não tínhamos muita intimidade antes, agora ficou pior. Eva foi sempre muito gentil conosco, nos tratava muito bem. Convidou-nos vária vez para ir até a casa do pai. Estive lá uma ou duas vezes. Sabe como é. Temos outro tipo de vida. Entre eu e os familiares dela, jamais teríamos um relacionamento sincero. Aceitava-nos somente pelo grau de parentesco com Heitor. Nada mais. Mesmo assim, sinto-me culpada. Deveríamos ter sabido que cedo ou tarde haveria uma separação. Só que nunca imaginei que fosse tão trágica. Meu Deus! _ Lamentamos profundamente. A Senhora Deve imaginar como deve estar se sentindo o Sr. Zacarias. É por estes fatos que não podemos deixar os bois sem nomes. Faça como estou pedindo. Talvez não saiba como encontrá-lo por enquanto. Mas se tiver qualquer informação sob ele, tente fazê-lo se entregar. Confie em nós. _ Espere um instante. Parece que minha chegou. Sim é ela. Blenda, filha, estes senhores são da policia. Vai nos ajudar. _ E a Senhora acreditou, mamãe? O que disse a eles? O que disse a eles mamãe? _Não fique assim, minha filha! Estamos precisando de ajuda. Podemos confiar nele! _ Se a senhora lesse jornal saberia quem são estes dois, mamãe! São como urubus famintos em cima de uma cassa! Não sabemos onde se encontra Heitor! Se quiser o assassino de Eva, procure pelo seu amante! Foi ele! _ Eva tinha um amante? _ O que o Senhor, acha, Dr. Morim? _ Se sabe de algo que não sabemos, é melhor para seu irmão que nos diga. Podemos ser cruéis como as pessoas dizem. Mas jamais dormiríamos sossegados com um inocente atrás das grades. Não esta vendo como esta sua mãe? Se sabe de alguma coisa, diga-nos, mais rápido solucionaremos o caso. Porque tem tanta certeza em firmar que sua cunhada tinha outro homem alem de seu irmão? _ Ela tinha um rostinho de santa. Mas não era. Pode ter enganado Heitor. Mas não a mim! Sei que ela saia com um homem quase da mesma idade que Heitor. Certa fez quando saíamos da escola, eu e uma amiga, vimos ela com este homem. Um sujeito bonito. Alto, tipo atlético dos olhos verdes. Como ela era uma imbecil, foi fácil ser seduzida. Não adianta me perguntar que é ele porque jamais o vi novamente. _E como pode ter tanta certeza que ambos eram amantes? _ Não sou burra como meu rosto teima em mostrar, Doutor,nem preciso que meu sexto diga alguma coisa. Sei e pronto. _Poxa! Bem, sendo desta forma, com tanta certeza, não nos resta outra saída a não ser procurar o tal galã._ Comentou morim um pouco sem graça. _ Porque não falam com a empregada dela? Talvez saiba de alguma coisa. _Faremos isto. Quanto às senhoras, mantenha em casa, não fale com estranhos. Quantos a nós, estamos trabalhando. Logo,logo resolveremos isto. * _ Duas mulheres de opiniões diferentes, Abraão. Qual delas estarão com a verdade escondida? A amiga faz seu papel defendendo-a. A cunhada a condena. Sabemos como qual é o verdadeiro papel das cunhadas e sogras. Estão sempre por perto, mudas como uma porta, mas com os olhos e ouvidos bem atentos. Eternas guardiãs, que ao mais simples dos erros, a boca que beija, põe a língua ferina para fora, cruel como as navalhas dos maus barbeiros nos tempos da monarquia. Deixaremos ela de lado. Quanto ponto negativo encontrou na cena do crime? _ Vários. Primeiro: ele a matou e foi deitar, sujando o lençol. Não faz sentido. Segundo: as manchas de sangue no lençol parece ter sido saído de um sangramento. Os exames mostram que o sangue era da vítima, e não dele. Suponhamos que ele estivesse muito bêbado e estivesse deitado para recuperar dos efeitos do álcool. Aí as manchas seriam vistas com os sinais dos dedos. Terceira: o crime fora de uma brutalidade chocante. Sabemos que num coso como este, um assassino que não tivesse qualquer parentesco com a vítima, poderia ter feito várias coisas dentro da casa. Inclusive, fazer uma refeição e deitar um pouquinho. Mas, ele era seu marido! Qual seria a reação natural num caso destes? Depois de matá-la, a realidade viria à tona rapidamente. O pensamento neste caso é limpar as mãos o mais rápido possível. Lavou-se , mas parece não ter tocado na toalha. Como o sangue dela veio parar encima do lençol? Pode se dizer que estava bêbado demais para pensar nisto. É provado que o subconsciente age num momento como este. Um bêbado, por mais que estiver, sempre para em frente a uma avenida movimentada, a espera de uma chance para atravessá-la. Se ele cai e é atropelado, a culpa não foi do cérebro, mas sim das pernas que não o agüentou. Pode ter acontecido isso. Mas... Porque não tem marcas de sangues pelas paredes do corredor, pelos portais onde ele se apoiaria, já que a perna não o agüentava? Falta a lógica. Devemos procurar outra explicação. * Morim estava pensativo. Permaneceu assim até no fim da tarde, quando pensava em tirar um pequeno cochilo, uma policial a procurou-o com um pequeno telefone de mão. _ Tal Silvia Lemos._ Disse ela _ Que coisa! Onde terá ela conseguindo este número?_Comentou ele enfrentando o olhar irônico da moça. _ Dr. Morim? Aqui é Silvia. Gostaria de falar com Sr. Poderia se daqui a pouco? _ Sim, claro. Poderemos ir ate sua casa, se não se importa. _ Estarei esperando. Até mais ver. _ Que notícias terá para nos dar a bela Sra. Silvia? Deve ter lembrado de alguma coisa que deveria ter nos dito. Que tipo de neblina cobre esta senhora? Parece-me uma boa atriz. Resta-nos, ouvi-la. * _ O Sr. Sabia que Eva gostava de pinturas? Adorava os quadros regionais._ Disse Silvia, servido duas xícaras de café. _ tive uma grande surpresa agora à tarde. Estive com O Sr. Zacarias. Num gesto de delicadeza, perguntou-me, se eu gostaria de ficar com os quadros dela. Respondi que gostaria muito. Ela já havia me presenteado um na semana passada. O Srs. Gostariam de olhá-lo por instantes? _Nada entendemos desta arte, madame. _ O Trarei em um instante. _ Disse e se afastou, pouco depois voltou com um pequeno quadro na mão. Morim olhou-o surpreso. _ Pensei que fosse maior. _ Disse ele olhando seu conteúdo. Mostrava uma montanha ao fundo, embaixo, no vale, parecia um vulto de um homem de costas, com um ramalhete de flor nas mãos. Parecia olhar o infinito. _ O “Solitário”. Eva passava tempo olhando este quadro, tentando captar alguma mensagem. _ Disse ela colocando-o em cima de uma mesinha no centro do aposento. _É mesmo? _ Sim. Mas como dizia, aceitei de bom agrado os presentes. Mas aí veio a grande surpresa: quando fomos pegar os quadros estes haviam sido destruídos! Imagine os senhores, quebraram todos! Os armários do banheiro, os da cozinha e tudo que foram encontrando pela frente. Ai! Como estou chocada! Nunca vi tanto vandalismo! Ele é cruel! _ Ele? A Sra. Esta pensando que foi Heitor? _ O Sr. Não entendeu? Ele voltou e destruiu tudo! Esta louco! E eu estou com medo! Liguei agora pouco para o meu marido, para que venha imediatamente para casa! Não quero ficar um só momento sozinha! Nunca gostei dele! Pode estar por aí à espreita! _ Mantenha a calma. Porque ele viria até aqui? Não há motivos para pânicos. Confie em nós. Deve saber que não deixamos trabalho com final de interrogação. Se foi ele, vamos botar as mãos em cima dele. Agora temos que ir. Temos muito que fazer. A manhã teremos um encontro com a empregada de Eva, talvez ela nos diga alguma coisa que nos interessa. _Quem? Maria? Pobre criatura! É tola demais para saber de alguma coisa. _ Esta enganada, madame. As pessoas tolas de nascença, não sabem fingir. São como crianças. Os “sim, sim. Não, não.” valem muito. * Uma multidão de curiosos cercavam a casa. Uma corda fora posta como divisória para preservar o local do crime. Um corredor humano fora aberto e Morim e Abraão passaram por ele sem olhar a cara da turba. Ao lado do cadáver olharam desolados para os lados. Rastros e mais rastros. Tempo perdido. Ate um pouco antes da chegada, policias ainda retiravam os curiosos que estiveram ao lado do corpo, caído em um quartinho, aos fundos do terreno, sem muros na frente. Morim curvou-se sobre o corpo da mulher. Trazia ainda o pavor no rosto. Fora uma mulher corpulenta em vida. Jazia com a parte posterior do corpo para dentro do pequeno aposento. As pernas, do joelho para baixo, estavam para fora. Morim olhou os objeto dentro do quartinho. Uma peneira fina dependurada, uma pequena enxada encabada, uma foice sem cabo, e vários apetrechos de pequenas utilidades domesticas. Resumindo: Era um aposento de guardar bagulhos. _Alguma pista? _ Indagou para um policial de perícia. _ Nada. O corpo foi encontrado por um garoto que mora ao lado. Veio pegar a bola que caíra para o lado de dentro do terreno dela. Como vê, as pernas dela estão para fora. Isto chamou sua atenção. Como é comum em um caso destes, abriu a boca para meio mundo. Deve ter passado por aqui, umas quinhentas pessoas. _ Lamentável. Uma testemunha seria um bom começo mas parece que é inútil. Mesmo assim procure. Ofereça segurança. Temos que botar as mãos neste assassino. É possível que alguém tenha visto alguma coisa de suspeito. O medo. O medo impõe lei do silêncio. Que arma foi usada? _ As mãos. O assassino a estrangulou numa gravata mortal. _ Continuem trabalhando. Mantenham os ouvidos e olhos atentos. Procurem saber que tipo de carro foi visto por perto nas últimas horas. _ Certo, Doutor Morim. * _ Tudo leva crer que ela sabia de alguma coisa, Abraão. O assassino não quis correr o risco. Irá eliminar todas as pessoas que pode lhe oferecer perigo. Isso inclui Silvia lemos. Podemos considerar Heitor fora deste assassinato. Porque ele iria complicar ainda mais as coisas?O assassino sabia que a empregada iria falar alguma coisa de importante. Devemos concentrar nossa investigação na procura do tal amante. Passamos agora a pisar em ovos.Não podemos levantar suspeitas infundadas sobre uma vítima de assassinato. Corremos o risco de levarmos um belo processo nas costas. Um namorado assassino? Por quê? Motivos banais? É bobagem quebrar a cabeça com elas agora. Ligue para Silvia. Vejamos como ela se comportará ao saber da morte de Maria das Dores. _ Alô? Aqui é o Morim... _ Doutor Morim? Preciso lhe falar! Estou com medo! Foi ele! _ Mantenha a calma. Estamos trabalhando. Não há motivos para pânicos. _ Não? E ela? Porque a mataram então? Pobre Maria! Que fim horrível! Ela sabia de alguma coisa! Por isso ele a matou! _ Talvez não haja ligação com a morte de Eva. O assassino usou as mãos aos invés de facas. O crime foi há poucas horas. Nossos homens estão trabalhando. Porque não tira umas férias e vai para casa de sua mãe? _ Estou desempregada a meses. Tenho problemas com mamãe. Não tenho para onde ir. Para casa de minha sogra, não podemos. Ela mora em outro estado. Que devo fazer? _ Fique em casa. Procure relaxar. Porque temer se nada deve? Diga a seu marido que fique atento. Se sair para rua, vá para lugares movimentados. Em casa, tranque bem as portas. Resolveremos tudo em poucas horas. _ Queria ter a sua confiança, Dr. Morim. Mas farei o que me disse. * Duas horas mais tarde ambos receberam uma informação que uma jovem estava os procurando. _ Nossa apimentada garota Blenda._ disse Abraão, olhando-a pelo vidro negro. Trará-nos notícias importantes? Parece mais bonita sem o maldito orgulho. Esta pálida e mais magra. Como deve estar sofrendo! Pobre criança! Vamos recebê-la agora? _ Sim. Ela pode mudar de idéia e ir embora. Vejamos o que ela tem a nos dizer. Pouco depois ela entrou. Parecia um pouco curvada e com os olhos fundos. Deixava claro o reinado de uma insônia cruel. _ O Senhor Esta muito ocupado? _ Não. Sente-se. Vejo que esta mais calma. Algo de importante? _ Minha mãe passou mal esta noite. Teve uma crise de pressão alta quando soube do assassinato de Maria das Dores. Tentei proibi-la de ler os jornais quando sob da noticia. Infelizmente ela assistiu pela televisão. Não posso acreditar que meu irmão a tenha a matado. O Sr. é um homem inteligente. Se ele matou Eva bêbado, por que ele iria matar Maria? Não faz sentido. Pobre Heitor! Se ele matou Eva, deve estar muito sentido. O crime não foi premeditado. Foi uma tragédia causada por estas drogas em líquidos chamadas de álcool. _ Srta. Blenda, estamos trabalhado. Nada escapa de nós. Meu companheiro e eu, temos nossos métodos. Detalhes que às vezes passam despercebidos, nós o passamos em uma peneira fina. A verdade, somente a verdade nos interessa. Volte para casa, cuide de sua mãe. Diga a ela que a verdade irá aparecer. A verdade é doida,mas necessária. Conhecia bem a empregada de Eva? _Não. Vi a uma duas vezes. Não mais. Pobre criatura! Como podem fazer isto com uma pessoa que não fez mal a ninguém? _ Sim, talvez ela não tenha feito mal algum. Mas com certeza sabia de alguma coisa. Quem sabe tenha visto algo que nos levaria ao assassino. Isso foi à causa de sua morte. _ Resolva isso de uma vez por todas Senhor Morim. Minha mãe não ira resistir outra crise de pressão alta. Faça o que tem que ser feito e não se esqueça do que lhe falei. Ela tinha um amante. Encontre-o e terá o criminoso em mãos! Tenho que ir. Até mais ver. Ambos ficaram olhando-a a afastar. _ Garota esperta. _ Comentou Abraão. _ Devemos retirar o que você disse sob as cunhadas? _ Ainda não, meu velho. Ainda não. * As dez da noite, após um leve jantar, ambos estavam curvados sobre vários papeis. Um novo boletim foi jogado sobre sua mesa. Morim soltou um profundo suspiro de alivio após lê-lo. Passou-o para Abraão e ficou esfregando as mãos em frente à boca, olhos semicerrados, pensativos. Entre os produtos de um assalto,pego junto com o assaltante, um cheque de Eva dava nova pista para o caso. _ Um vagabundo de rua troce-nos alguma luz._ Comentou ele satisfeito_ Ele assaltou a loja as quatro da tarde. Tentou a fuga em uma moto e foi pego pela patrulha que passava pelo local. Cento e oitenta reais em dinheiro vivo, quatro mil em cheques. Entre estes, um de Eva Zacarias, no valor de mil reais. Foi preenchido há vinte dias a traz o valor foi pago em materiais para construção no nome de Maria das Dores. Não pude notar qualquer reforma externa na casa dela. Notou alguma coisa, Abraão? _ Não. Não foi feita reforma alguma. Temos que entrar em contato com a filha dela. Veremos o que ela tenha a nos dizer sobre o fato. No dia seguinte, as oito em ponto, estavam com a filha mais nova de Maria das dores. Uma jovem senhora grávida de sete meses torceu as mãos nervosas. Apontou para um monte de tijolos e comentou: _ Sim, ela mandou entregar estes materiais aqui. Os senhores querem ver a nota fiscal? _Não, não é preciso, moça. A pergunta que vou fazer pode soar como um tanto ofensivo, mais temos que fazê-la, compreende? Preste atenção. Sua mãe tinha feito algum acerto de conta entre ela e a patroa? _ Não. Minha mãe não havia feito acerto algum. Recebia apenas o salário no fim de cada mês. Às vezes um pouquinho a mais por algum serviço extra. Ontem a tarde um senhor esteve aqui. Disse-me que era por parte do senhor Zacarias, pai da dona Eva. Disse-me para procurá-lo para tratar de dar baixa na carteira de trabalho de minha mãe. Deu-me este cartão. _ mostrou um pequeno cartão. Morim leu-o rapidamente. Havia um número de telefone e ele marcou na palma de mão. _ Talvez ela tenha pedido o dinheiro emprestado para a patroa. _ Isso eu não sei. Não acredito. Ela não iria fazer isso. _ Bem, minha jovem o caso é complicado. Não queremos por em jogo a honestidade de sua mãe. Sabemos que pessoa como ela é uma heroína. Mas como acha que sua mãe conseguiu este dinheiro? _ Não sei. Só sei que minha mãe não roubou este cheque. Ele foi dado pela mão dela, não foi?_ Disse ela um tanto pálida. _ foi um presente. Sim. Um presente. As pessoas podem receber presentes em dinheiro, não podem? Minha mãe não roubou este cheque! Não podem receber presentes em dinheiro...? _disse e soltou um soluço profundo. _ Sim. Podem. Não é nenhum crime. Agora vá descansar. Cuidado com o bebê! Cuide de sua casa, moça. Manteremos contato. Se lembrar de alguma coisa, procure-nos. Lembre-se: estamos trabalhados. Jogaremos o assassino de sua mãe atrás das grades. Não tenha dúvida! * De baixo de uma sombra agradável o dois policial olhavam silenciosos um jovem que varria o grande pátio de estacionamento da firma Zacarias & comercio. Era hora de almoço e poucas almas eram vistas. Exceto pelo varredor, quatro pessoas passaram pelo local nos dez minutos que ambos estavam ali parados, esperando que o velho Zacarias os recebessem. Morim fez um gesto de enfático e saiu do carro. Aproximou do jovem zelador e perguntou pelo patrão. _ Ele esta lá dentro. Desde que a sua filha morreu ele não almoça mais em casa. A comida vem de um restaurante. Afoga as magoas no trabalho.- comentou o jovem sem deixar de varrer. Apontou uma porta de cor negra, no fim de um corredor gigantesco._ esta lá dentro. Sua secretária, a dona Meire só chega depois das duas. Acho que podem ir lá. Espere... Irei ver se podem atendê-los. _ disse e se afastou. Pouco depois o velho Zacarias saia. Seu vulto magro e seco cambaleava pelo corredor. Ambos foram ao seu encontro. _ Dispenso os elogios educados, senhores._ Disse ele num tom fraco_ tenho recebido muitos pêsames ultimamente e, entre eles de algumas cobras venenosas! Vamos tomar um ar mais fresco. Passo as noites olhando para o céu a procura de alguma coisa que me dê compreensão para minha dor! Olhem para os arredores... De que vale este império agora? Algumas pessoas me param e dizem sem saber o que estão falando: “que grande homem és, Sr. Zacarias..., como conseguiu tanto poder assim em poucos anos de trabalho...? Foi mesmo vendendo bugigangas portas em portas...?” _ Tolos! Pagam o almoço e ficam devendo o jantar! Agora isso não tem importância. Quando Eva estava em vida, sentia me orgulhoso desta fama idiota de ter conseguido tudo vendendo bobageiras porta em porta, exibia-me até, sem qualquer dor na consciência pela tamanha mentira! _ Maneou a cabeça contrariado. Estavam agora caminhando por baixo dos arvoredos cuidadosamente aparados. Dali podiam observar um grande mural de concreto com um grande Z a dez metros de altura, ladeado por pequenas palmeiras e outras plantas que não podiam ser indetificadas pela distância. Apontou-o com a mão e ficou olhando, com o rosto tenso, pensativo. Chutou uma pedra invisível e disse baixinho uma frase. _ O que o Sr. Disse?_ Indagou Morim. _ Disse que talvez ela sentisse algum orgulho por mim. O que ela faria por mim? _ Não mantinham um certo diálogo intimo, de pai para filho? _ Quando criança sim. Depois que casei novamente ela manteve-me a uma certa distância. Não deixava transparecer muitas emoções nas nossas conversas. Proibiu-me de dar-lhe conselhos. Irritava-se com facilidade nas nossas conversas. Compreendi o que ela estava sentindo e me acomodei. Quando casou com Heitor fiquei feliz. Era o que havia prometido para a mãe dela no leito de morte. Por isso seu nome era Eva. Foi uma escolha nossa, premeditada, antes dela nascer. Vou contar uma pequena história de minha vida. Quando eu era criança, meu avô, que também se chamava Zacarias, obrigava-me a ouvi-lo a contar a história de nossos antepassados. Claro que não o levava a serio. Era pequeno demais para entender certas coisas. Mesmo depois de adulto continuei a não levar a serio. Somente quando casei e tive os três primeiros filhos é que comecei a dar valor nas histórias da família. _ Como deve saber, nós descendentes de portugueses, somos quase todos filhos dos cristão-novos, fugidos dos paises arábicos. Os meus primeiros bisavós trocaram de nome quando entraram para Portugal e assim permaneceu por longos séculos, perdendo o verdadeiro nome da terra natal. Quando entraram no Brasil, voltaram a usar os nomes com sentidos iguais. Meu pai tinha o nome de Benyamim, e assim por diante. Fugi da regra. Nem um de meus filhos traz qualquer nome parecido. Certa noite quando voltei de uma de minhas viagens, sentia-me triste. Lembrei-me de meu velho avô, de meu pai, e de sua histórias. Senti-me muito envergonhado. Onde estavam a minha humildade? Perguntei para estrelas numa noite calma. Como estavam cuidadosamente arrumadas! Que sabia eu do passado? Quem era para quebrar uma velha tradição milenar? Procurei minha esposa e tivemos uma longa conversa. Um outro filho seria a solução. Quando nasceu uma menina o seu nome já estava escolhido. Seria Eva. Quando se casasse e tivesse filhos, reiniciaria onde interrompi. Parece que não foi aceito por Deus. Meu Deus! Como pude falhar? _ Ainda há os netos, senhor Zacarias. Porque não tenta novamente? Um guerreiro não o deixa o campo de batalha por uma baixa. Nosso lema é: Para frente sempre! Os dias do amanha devem ser preenchidos. Cabe a nós tal tarefa. Comece novamente. Faça o que seu avô fez. Sempre, sempre, sempre! _ Não havia pensado nisto...! Sim, esta na hora de recomeçar! Os netos! Porque não pensei nisso antes? _ Maria das dores, a empregada de Eva, conheceu-a? _ Uma pessoa excelente. Ordenei que um contador procurasse uma de suas filhas. Ela trabalhava com Eva há vários anos. Tem seus direitos trabalhista. Soube de sua morte pelos jornais. Tinha a língua solta. Não pensava no que iria dizer. Certa vez fez-me um comentário franco, raro nas empregadas domésticas. Disse me que sentia mais simpatia por Heitor que minha filha.Perguntei o porquê. Respondeu que Eva era muito tola. Magoava o marido com suas amizades idiotas. Concordei com ela, sabendo a quem se referia. Ela estava falando de um casal que explorava Eva. Eram um belo par. Ela é muito bonita. Vi o marido uma vez, se não me falha a memória. Lamento. Não recordo seus nomes._ disse e passou as mãos pelo rosto suado. Morim olhou sua sobrancelha grossa. Aparecia uma pequena tocha de fios embranquecidos, desordenados, grandes e inrriçados. _ Silvia..._ Disse Morim. Tocou de leve nos ombros do velho curvado._ Silvia Lemos. Um metro e setenta e cinco, olhos cor de mel, cabelos castanhos claro. Nariz romano, rosto suave. _Ela mesma. Eram amigas íntimas. Não sei como ou onde se conheceram. Sei que Eva dava-lhe dinheiro vez por outra. Roupas e jóias também. Chamei Eva para dar lhe um conselho. Foi inútil. Ela não quis saber de conversa. Não toquei mais no assunto. Sei que isso pode ser até normal ajudar um amigo nas horas de aperto. Agora adotar um casal de marmanjos..., é muito diferente. Aí a lógica do comentário de Maria das Dores. Ontem tive um encontro rápido com ela, digo com a tal Silvia. Telefonou-me antes. Perguntou-me se queria doar-lhes alguns quadros de pintores regionais que pertencera a minha filha. Disse-me que Eva já havia lhe doados antes. Não fiz qualquer objeção. Não vale nada. Não para mim. Dei uma saída rápida e fui ate a casa de Eva. A casa estava uma bagunça. Todos os quadros havia sido destruídos.Guarda-roupas revirados, como todas as gavetas dos armários. Ela aprontou um grande escândalo. Culpou Heitor pela destruição. Mandei que levassem todos os moveis para minha casa. _ Acha que Heitor é o culpado? _ Não sei. Seja quem for, quero o caso esclarecido. Doa a quem doer. Confio nos senhores, mais se falharem, tenho uma rede de detetives pronto para entrarem a ação. Não aceito meio termo. Basta de impunidades! Tenho sido alheio às dores dos outros, mas quando se sente na pele às dores é que a gente vê o quanto estamos atolados.Temos as mãos e pés amarrados! Espero que não tenha sido ele. Gostava muito dele. Um raro exemplar de honestidade. Uma pena que tudo isto tenha vindo acontecer...! Tinha grandes planos para ele! _ O senhor tem funcionários mais antigos... Godim por exemplo. _ Não, não. O Sr, esta enganado.Trabalhou sim, outrora. Agora faz parte do pessoal de Beladona, minha esposa. O ramo dela é produtos femininos, esmaltes, batons etc. Ele mesmo pediu sua transferência para lá. Aceitei. Bela disse que ele era muito mais útil para ela que para mim. Não fiz questão alguma. Era calmo demais para o meu gosto. Parece um boneco engomado! Elegância sim, exagero deixo para as mulheres. _O senhor não tem estado com ela por estes dias, não é mesmo? _ Sim. Estamos quase separados. Isto vem se arrastando há muito tempo. Meu advogado esta tocando o negocio para frente. Falei com ela por telefone ontem. Disse-me para esfriarmos a cabeça e recomeçarmos tudo de novo. Acho muito difícil. Tenho pensado muito depois que minha filha morreu. Ela tinha razão. Olhando o ninho por cima se descobre falhas irremediáveis. Faço isto por Eva. Talvez ela fizesse o mesmo por mim. Quem sabe? _Sim senhor! Esta certo! Porque não? Porque não? _ Tornou a repetir Morim enquanto seu olhos brilharam rapidamente. Olhou para o companheiro.Abraão concordou com a cabeça. Pouco depois ambos seguiam devagar pela estrada que parecia um forno. _ Rodolfo... Comentou Morim _ temos que encontrá-lo,meu velho. Esta na hora de cobrarmos-lhe o pequeno favor. _ Sim. Ainda estão curtindo a ressaca da solução do roubo das facas. Ele deve estar com alguma namorada socados em algum lago, pelados, celular desligado. Isto é bem dele. Chapada dos Guimarães é seu ponto predileto. Encontro ele em poucas horas. * _Olho abertos_ Disse Morim para os dois policiais que estavam na calçada, em frente à casa de Silvia Lemos. Faltava pouco para as oito da noite. Esperou que Abraão abrisse o pequeno portão do corredor, entre a casa e o muro, onde sairiam nos fundos. Menos de dez minutos ambos retornaram com um objeto embrulhado em um lençol. Já dentro do carro em movimento pediu informação por telefone a outro policial sobre o casal. _ Estão dentro da igreja Matriz. A missa teve início neste momento. Deve terminar lá pelas nove e meia._ Morim suspirou fundo. _ Estão rezando. Isso é bom. Como não são cristãos fervorosos, devemos deduzir que estão procurando ajuda divina desesperadamente. Assim que ele acabou de desligar o celular, uma nova chamada foi feita. Levou-o ao ouvido e ouviu com atenção. _Estamos a caminho! Acabaram de encontrar uma testemunha que viu o rosto do assassino de Maria das dores! Vamos ao retrato falado! As luzes do túnel começam a clarear, Abraão. Que encontrou? _Estávamos certos! Veja! _ Abraão balançou um feixe de páginas no ar._ O velho Zacarias pode finalmente sentir orgulho da filha. Garota tola! Porque não procurou ajuda da policia? _ Ainda não inspiramos confiança total, meu velho. E isso leva alguém deduzir que pode resolver os problemas sem a nossa ajuda. Esperemos que tudo caminhem bem, agora. Estou cansado. Não vejo a hora de tirar um bom cochilo. Mergulhe nestes documentos, homem de Deus! Estamos pertos, muito perto do fim. . * Às duas horas da manha o telefone despertou Abraão. Era Morim. _ No pronto Socorro. Espere-me lá. Pouco depois ambos se encontraram. Morim estava agitado. Parecia um grande rato molhado a procura de oxigênio. Segurou Abraão pelo braço, acima do cotovelo. _ Cometemos uma falha terrível! Tentaram matar Silvia Lemos! _ Mas como? E os dois homens que deixamos de plantão? _ Mais uma falha nossa. Subestimamos o assassino! Entrou na casa dentro do porta-mala do casal! Entrou enquanto estavam dentro da igreja! Para o bem de nossa consciência, ela esta viva. Vamos! Temos que ouvi-la! Uma Silvia Lemos com olheiras profundas encarou os dois homens com altivez. Passou as mãos trêmulas sobre o rosto e soltou um suspiro profundo. Ainda estava assustada. Mesmo assim não retirou o olhar de crítica sob eles. _ O senhor falhou, Doutor morim! Quase me mataram! _ Sim, reconheço que cometemos uma falha. Isso prova que nós estávamos errados em alguns pontos. Conte-nos o que aconteceu. _ Acordei com um leve barulho, e o primeiro ato foi acordar Lucas, meu marido. Ficamos por momentos em silencio a espera de mais barulhos, e, como naqueles breves momentos não mais aconteceu, deixamos de nos preocupar. Lucas disse que eram nossos nervos é que estavam-nos pregando peças. Voltou a dormir. Eu não consegui. Levantei e fui ate a cozinha, tomei um gole de água e voltei. Na volta pensei em ir até a sala onde poderia ver os dois policiais que estavam de plantão. Atravessei a sala, afastei a cortina e vi os dois lá fora. Isso me deixou calma. Na volta... Ao passar pelo corredor dei de cara com ele...! Tentei gritar... Mais ele foi muito rápido, só recordo de um pano em volta de meu pescoço... O pavor... A escuridão...! _ O seu rosto... Viu seu rosto! _ Sim, doutor Morim. Vi. Sei quem é. * _ Vejo que nossos homens interromperam o seu sono Sr, Godim. Mais uma vez sua facilidade em dormir após um crime, levou-lhe ao fracasso. Em todos estes anos de trabalho, tenho lidado com todos os tipos de mentes. Mas, devo lhe confessar que fico assustado quando me deparo com tipos como você. O que lhe leva a matar com tanta facilidade, se tem uma vida acima do normal, sonhada por milhares de pessoas em todo mundo? Um animal predador mata para alimentar-se de sua vítima, em um processo normal da natureza. A comparação soa ridícula, já que conheces muito bem as cores da nossa bandeira, não é mesmo senhor Godim? _Disse Morim sem encará-lo. Estava em pé, em frente da janela, olhado para fora, com as mãos para traz. Godim estava sentado, cabisbaixo, olhando suas mão brancas, orneadas por anéis de ouro. Deu um leve tossido e disse: _ Quero meu advogado. _ Claro, claro. Terá seu advogado. Antes diga a nós por que matou Silvia Lemos. Vamos Sr., Godim. Esta numa enrascada feia. Porque a matou? Por ciúmes? Porque ela sabia demais? Ela foi testemunha de algum outro crime? _ Meu advogado. _ Esta bem, Sr Godim. Antes, porém, devemos lhe mostrar porque somos quase infalíveis. Abraão, mostre a ele. Abraão rodeou a mesa e colocou um pequeno embrulho em cima desta. _ Sabe o que temos aqui? O quadro que você foi pegar na casa de Silvia lemos. Não se espante. O que levou era falso. Colocamos lá antes de você entrar na casa pelo porta mala do carro dela. Sabe muito bem o que tinha por traz desta bela pintura. É todo seu Morim. Godim soltou um leve suspiro. _Sim senhor. _ Disse Morim saindo da janela e sentando. _ _Matou Eva para lhe calar a boca. Beladona Zacarias. Que nome! Recebe ordens só dela, Heim? Não foi o que me disse na nossa último conversa? Para o seu azar, os federais há tempos que estão de olho nesta bela senhora. Tráfico, lavagem de dinheiro, prostituição de menores. O que levou Eva a desconfiar dela? Este papel que você procurava! Anotações que pararam nas mãos dela por acaso! Passou então a ameaçar a madrasta, exigindo que esta se separasse do pai! Em troca devolveria as provas. Como não tinha lugar seguro para guardar as pravas, colocou-a por traz de um simples quadro. Como vocês não são burros, deduziram logo que as provas estariam por perto, aos olhos dela. Então veio a ordem para matá-la. Acontece que você nunca gostou de Heitor. O fato de um simples motorista casar com a filha de seu patrão, que um dia sonhou que fosse sua, era demais para sua mente assassina. E naquela noite quando bebia com ele, veio-lhe então a idéia macabra: matar dois coelhos de uma só pancada. Receberia uma boa grana para livrar-se dela, e, por cima jogar a culpa em cima do marido que nunca gostou. Seguiu ele a noite toda, por fim, também dentro do porta malas, procurou um lugar seguro dentro da casa, e esperou que ele deitasse bêbado, quando Eva chegou, matou-a a facadas. Foi até ao quarto dele e o sujou-o cuidadosamente com o sangue dela. Preparou dois copos com bebidas, várias latinhas de cervejas e colocou ao lado do corpo. Estaria tudo perfeito se não fosse sua frieza assassina, Sr. Godim. Foi para casa e deitou um pouquinho para relaxar, e pegou no sono. Isso pôs tudo a perder. Quando acordou era tarde demais para ligar para policia!Heitor já havia dado no pé. Foi como esta noite. Matou e voltou para dormir. Um erro fatal! _ Esta bem. Perdi o jogo. E quanto a ela, beladona? _ Abra o jogo para os dirigentes da velha senhora cega. Eles te darão proteção. Mais anda falta algo. Não estamos esquecendo de mais um crime? Porque matou Maria das Dores, empregada de Eva? _ Não sei quem é. Nunca ouvi falar dela. Neste caso aí estou limpo. Palavra. Torno afirmar: não sei quem é. _ Esta bem, Sr. Godim. Para sua sorte Silvia Lemos não morreu. Esta viva e passa muito bem. Seu advogado já chegou. Godim suspirou fundo e maneou a cabeça, irritado. * _ Vejo que recuperou muito bem. Isto é bom. Mostra que é forte para suportar os desenganos que a vida oferece. Viemos lhe devolver o pequeno quadro, “o solitário”.Foi muito oportuno o comentário que fez sob Eva gostar de apreciar a pintura. Graças a ele, conseguimos desbaratar a quadrilha de Beladona. Lamentamos que a pobre Eva tenha perdido a vida. _ Disse Morim de onde estava sentado. Seus olhos brilharam por instantes. Em sua frente estava o marido, alto e elegante, dentro de um par de roupas escuras, sapatos da mesma cor e meias brancas. Seu olhos azuis estavam profundos e opacos, avermelhados. Esfregou as mãos e deixou-se se encostar ao espaldar do sofá. _ Sim. _ Disse Silvia_ pobre Eva. Tão gentil, tão ingênua. Porque não confiou em mim os documentos? Teríamos evitado tantas tragédias! Mas acho que foi pensando em nós que ela preferiu esconder tudo. Imagine! A própria madrasta! É o fim do mundo! Pobre Eva! Tinha um coração de ouro! Gostava de ajudar as pessoas! _ Sim, concordamos. Foi bastante generosa doando as mil reais para sua empregada, Maria da Dores. O dinheiro irá ajudar na construção da casa de umas de suas filhas. Muito generosa mesmo. _ Comentou Morim. _ Heim? O que o Sr. disse? Que Eva doou mil reais para Maria? Quem lhes disse tamanha besteira, com todo respeito? _ Encontramos um cheque neste valor, destinada a ela. Então acha que não foi uma doação? Também temos nossas dúvidas. Alias, temos toda certeza que não foi bem sequer uma doação. Mais houve o consentimento de Eva. Ela foi obrigada a fazer a tal doação. Foi aconselhada a fazer. Na verdade foi uma tentativa de fazê-la calar a boca! _ Não estou lhe entendendo, Doutor Morim. Pode ser mais claro? _ Ora, é tudo muito simples. Como era uma pessoa íntima, com toda certeza, sabia bem da vida particular de Eva. Sabia, por exemplo, quem era o amante dela. E, ela e o amante, sabendo da simpatia que Maria nutria por Heitor, o melhor eram mantê-la sob controle. Fazia isto com pequenos presentes, como roupas, etc. Enquanto Eva estava viva, ela esteve em segurança. Se ela estava morta, porque não matar também a empregada que sabia demais? Ela poderia falar e fazer graves acusações! Desesperado, mesmo sem nada dever, preferiu matá-la! Cometemos um erro que custou a vida da pobre empregada! Não levamos a serio o que nos disse a irmã de Heitor sobre um possível amante de Eva! Teria Maria das Dores revelado o nome do amante? Seria ela fiel como à senhora, dona Silvia? Ela esconderia o nome do amante? Não! Ela iria falar! A patroa estava morta. Seria uma forma de vingança! Seu assassino deduziu isto e não quis correr o risco. Mas por quê? Porque matá-la? Seria apenas para não ter seu nome revelado como amante de Eva? Não! Não foi por isso. Ter a identidade do assassino foi até bastante fácil, já que ouve testemunhas. Não procurou nem sequer tapar o rosto quando deixou a vitima. Matar não basta, é preciso ter motivos. Estes motivos também já sabemos. _ O Sr. esta louco! Já lhe disse que Eva não tinha nenhum amante! Pare de ofender minha amiga! _ A sua veemência em defender a amiga colocou-a sob desconfiança, minha senhora. Porque se agarrou a esta defesa, quase infantil? Não foi para defender o nome da amiga morta, não é verdade? Algo mais estava em jogo! Dinheiro! Sempre dinheiro! Este belo apartamento em que vivem pertencia a Eva. Desde livros a faculdade. Estava realmente apaixonada por você, Lucas. Deu-lhes de presente sem jamais entregar os documentos de posse. Não era tão tola como podiam imaginar. Sabendo que desta maneira tinha o amante por perto, sem correr o risco de perdê-lo! E o corte na mão, senhor Lucas, esta melhor? Ficou deveras irado quando destruiu todos os moveis de Eva por não encontrar os papeis da posse,heim? Foi uma bela desculpa esta de pedir os quadros para o velho Zacarias. Destruir e fazer uma bela encenação perante o velho Zacarias, jogando todo o ato sob Heitor. _ Diga alguma coisa, Lucas! Não fique aí parado como se nada estivesse acontecendo! _ Gritou Silvia dando um salto para o centro da pequena saleta. Morim olhou para ele. Estava de cabeça baixa com as mãos no rosto. Ficou assim por instantes. Quando levantou o rosto, seus olhos estavam de um vermelho brilhoso, de lágrimas. Maneou a cabeça e levantando-se parou em frente da mulher. Seu rosto estava tenso. _ Acabou. Não percebeu? Acabou! Tudo por sua culpa! Tornou me um assassino por nada! Obrigou me a matar por nada. Ela nunca iria dizer nada! Nada! Ela já havia me prometido! Nada! _ Sente-se, Sr. Lucas. É tarde demais para chorar sobre o leite derramado! _ disse Morim forçando-o a sentar_ Tiveram a faca e o queijo na mão. Exploraram Eva o máximo que puderam. Na verdade ela era uma santa de uma ingênua. Não contou então para a esposa que havia aconselhado Eva a doar os mil Reais? _ Ela e Maria tiveram uma pequena discussão. Eva andava nervosa desde que os papeis passara para sua mãos. Pensou em queimá-los, e esquecer tudo que descobrira sob a madrasta. Certa noite Beladona ousara ofendê-la com uns palavrórios. Isto mudou todo seu comportamento. Passamos uma noite em claro para tentar resolver o problema. Depois da discussão que tivera com beladona, tornara-se difícil persuadi-la a tirar a idéia da cabeça, a de obrigar beladona a pedir o divórcio de seu pai. Numa manha, ela rasgou o jogo, não estava perto para presenciar o que aconteceu. Mais depois deste dia ela vivia em estado de conflito. Certa noite mencionou o desejo de esconder as provas contra Beladona onde ninguém poderia imaginar. “Colocarei os documentos de posse do apartamento junto, meu bem” disse ela em tom de brincadeira. Não a levei á sério. Esta semana tive a idéia que eles poderia estar por traz dos quadros. Esteve tão perto de nós, bem ao alcance de nossas mãos! Estávamos pensando em ir embora para longe, depois que tudo acabasse. Eva e eu. _ Seria capaz disso, Lucas? Você seria capaz de me deixar? Seria? _ Lamento, Silvia. No amor e na guerra vale tudo. _ Não! Não é possível! _Deveria ter pensado nisto antes. Quanta vez lhe disse para seguirmos nossos próprios cominhos, sem ter que dependermos de Eva? _Sinto ter que interrompê-los. Nosso lema é: A Verdade acima de tudo. Cometeu um crime, Sr, Lucas. Nada justifica um assassinato. A lei e bastante clara sob este aspecto: tirar a vida de um ser humano somente em ultima hora e em defesa de si mesmo, ou de uma outra, mediante risco de ser assassinado, etc. O que fez? Que Maria das Dores seguinificava em termos de ameaça para ambos? Ora, nada! Poderia ter sido resolvido com uma boa conversa... _ Não foi bem assim. Quando Silvia me disse que os senhores iriam ter uma conversa com ela, pensamos logo em ir ter com ela antes. Silvia não quis ir. Então fui só. Ela me recebeu muito mal. Disse-me que não tinha nada a conversar com um assassino. “Como é capaz de dizer isto, Maria? Não sabe que eu a amava?” Disse-lhe eu, já lá nos fundos do quintal. Ela riu de mim dizendo que eu não passava de um gigolô, aproveitador da bondade de Eva. E que iria dizer tudo a policia assim que fosse perguntada. Tentei convencê-la de que estava errada, que não era aquilo que ela estava pensado. Tudo inútil. Continuou a me ofender, o que me fez perder a paciência. Falava aos gritos, aproximei-me dela para pedir calma, cuspiu-me no rosto. Assassino! Matou ela para ficar com o apartamento! Pensa que não sei?”Continuou a gritar, enquanto tentava pegar uma foice para me atingir. Agarrei-a por traz. Mantive-a assim ate que senti que ela estava mole. Soltei-a no chão. Vi, então que ela estava morta. Deixei-a onde estava e saí como um louco. Não queria matá-la! Por Deus, não queria!”. _ Sabemos, Lucas, sabemos. Por isso foi a uma igreja rezar, pedir perdão pelo crime cometido. _ disse Morim dando um estalo com as mãos. Alguns policiais aproximaram se de Lucas. Este estendeu os braços._Nada mais resta...! Desde que Eva morreu nada mais resta! _ Disse, virando as costas para a esposa. Ouviu-se então um soluço profundo, cortante._ Deixem-na em paz, ela nada deve. Assumo toda culpa. * _ Milhares de ano separam de nós o primeiro assassinato, mesmo assim, parece que nada mudou. Crimes e mais crimes. Que terrível desvio existe na mente humana? O ato de executar, mostra claro uma terrível vocação de superioridade sob os outros. Superioridade! Sempre existiu. Não era essa a religião de Hitler? Matam-se por nada! Banalizou. Violência, Por que voz quero? _ comentou Morim com o rosto colado no vidro da janela. _ Aperta-se um botão e lá esta ela. _ Disse Abraão com o rosto enfiado nos noticiários do jornal. _ Você tem razão. Nós, adultos, sabemos bem o que é ficção. Mas, e uma criança? Essa fina linha, que liga o bom senso ao desvio, não poderia ser afetada por ver tanta violência junta? E o sexo, banalizou? Se assim é, acabou a graça. Ah! Lá vem ela! Acertamos mais uma vez.Traz uma sacola. A triste sombra que lhe cobria o rosto, desapareceu. Uma bela recompensa para o nosso esforços! Ainda vale a pena acreditar em algumas pessoas! Seria uma lástima ver tão belo rosto marcado por profundas tristezas! Vejamos o que tem a nos dizer. _ Dr. Morim! Abraão! Vim-lhes agradecer! Tudo começa a voltar ao normal. As pessoas já não nos olham mais com desconfianças. Até mesmos velhos conhecidos que haviam se afastados, voltaram para pedir desculpas! Bem... Somos cristãos... Perdoamos. O Sr. Zacarias telefonou. Derramou-se em desculpas, dizendo que Heitor continua sendo seu genro. O que queremos é que tudo volte ao normal, ao mais rápido possível. Lamento muito por Eva e Maria. Quero lhe pedir desculpas pelos olhares atravessados que lhes dirigi. Mas vejo que ainda vale a pena acreditar em algumas pessoas! _ Obrigado. Sabe, como humanos que somos às vezes cometemos erros. Fazemos alguns prejulgamentos. E quando erramos, nada mais justo que recompensar a pessoa falada. Vamos todos tomar alguma coisa gelada? _ Espere! O que foi que disseram de mim? _ dissemos que as cunhadas, às vezes falham em suas observações. _ Eu jamais iria dizer, se não tivesse absoluta certeza. Só não sabia quem era. Tome! Sua fama chegou ate mim! _ Mamões! Que maravilha! _ disse alegremente Morim. _ Abraão, meu velho, ajude-me aqui! _ O Sr. poderia me dizer por que gosta tanto desta fruta? _ Então não sabe, minha jovem? É que ajuda muito o meu pobre estômago. Ajuda a digerir certas coisas que tenho que engolir. A alegre gargalhada de Blenda soou na rua vazia, num fim de tarde cinzenta.